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terça-feira, 31 de dezembro de 2019

O ano 0 e a questão das décadas

O sistema de numeração dos anos não é perfeito.
O tempo é marcado pelas voltas da Terra ao Sol, pelas estações do ano, pelos dias, pelas fases da Lua, pela posição dos astros, fenómenos periódicos que sempre intrigaram filósofos, pensadores e cientistas, mas faltava uma origem do tempo com algum significado popular.
O calendário actual baseia-se no calendário Juliano, criado por Júlio César, esse mesmo, com doze meses e 365 dias, e alguns acertos, que decidiu que o ano 1 (1 dC - depois de Cristo) seria o ano em que nasceu Jesus Cristo, e assim pôs ordem e deu uma referência à contagem do tempo, mas não sendo matemático, não sendo o zero um número 'digno', entendeu que o ano anterior a esse seria 1 aC (antes de Cristo), e não o ano 0.
Para fazer com que os dias e meses batessem certo com os textos bíblicos, e outros, o Papa Gregorio XIII decidiu, no século XV, ouvido os sábios, introduzir um ajuste de 10 dias ao calendário, para o equinócio da Primavera passar a ser à volta de 21 de Março, e para que a Páscoa, que é no primeiro domingo depois da primeira Lua cheia, depois daquele equinócio, ocorresse normalmente nos primeiros dias de Abril.
Hoje pensa-se que Jesus Cristo terá nascido por volta de 2 aC. e terá sido crucificado em 7 de Abril de 30 dC ou 3 de Abril de 33 dC.
Outra questão é a da contagem das décadas, dos séculos e dos milénios.
Uma década são dez anos consecutivos. A década de 70 começou em 1970 e terminou em 1979, os anos vinte são a década que se iniciou em 1920 e terminou em 1929. Nestes casos, as décadas têm  o algarismo das dezenas constante.
Agora se quisermos contar as décadas desde a primeira (ver figura), a 202ª década dC vai terminar no final de 2020, e daqui decorre uma discrepância entre esta e a outra forma de olhar para as décadas: os anos vinte do actual milénio começam em 2020, mas a 203ª década dC inicia-se um ano depois, em 2021.
Pela minha parte, não tenho problema em que se festejam todas estas décadas...

sábado, 21 de dezembro de 2019

Os algoritmos

Somos governados por algoritmos, desde aqueles que nos recomendam produtos para comprar, livros para ler, filmes para ver, até outros mais sofisticados, de que nem desconfiamos, e que volta e meia nos atrapalham, nos põem à espera, nos deixam sem resposta, nos chateiam, nos telefonam, nos fazem "ofertas", etc, para não falar naqueles que nos tratam da saúde e da vida...
Há-os basicamente de dois tipos, os colaborativos, que se baseiam em similaridades, de clientes ou de produtos, e os baseados em conteúdos, que os tentam agrupar em classes.
Claro que se trata de um jogo complicado, com uma forte componente psicológica, em que a imprevisibilidade dos clientes desempenha um papel complexo, embora não inultrapassável, do ponto de vista estatístico.
Uma versão elaborada destes sistemas, com perfis individuais baseados em dados recolhidos noutros contextos - redes sociais, por exemplo - terá desempenhado papel importante em actos eleitorais recentes, nos Estados Unidos e no Reino Unido.
Estes algoritmos estão presentes no YouTube, por exemplo, com os seus vídeos ou canais recomendados, e que nos permitem deixar arrastar pelas suas sugestões de uma forma passiva.
Importante será saber o que acontece se começarmos num vídeo, num canal, ou numa pesquisa específica, e nos deixarmos conduzir pelas escolhas do algoritmo, nós, que nos interessamos por um determinado assunto, ou um jovem cujos Pais o deixam a ver um vídeo infantil qualquer, sem saber exactamente a sequência de vídeos que o YouTube irá escolher.
Acabo de fazer uma experiência usando uma das ferramentas da colecção YouTube Data Tools.
Fiz uma pesquisa com os termos Alt + Right, limitada a 100 vídeos relacionados e as relações entre eles, cada um dos quais deu origem a outros vídeos relacionados, num total de 5918 vídeos diferentes, e 116752 relações.
Neste imagem, cada ponto representa um desses 5918 vídeos, agrupados de acordo com o número de relações entre eles
(usei o Gephi, e deixei de fora alguns vídeos muito afastados...).
Os vinte vídeos mais visionados são os da imagem seguinte, em que o grau indica o número de vezes que cada vídeo foi visionado, e se indica também o canal YouTube respectivo
As categorias dos vídeos visionados são diversas, com cerca de 50% a pertencer à categoria News & Politics, como seria de esperar
Voltarei certamente a este tema...

domingo, 11 de junho de 2017

Para o ano o S. João vai ser num domingo!

Um ano dura 52 semanas mais um dia, ou mais dois dias, nos anos bissextos.
Assim, se este ano o S. João é num sábado, para o ano vai ser num domingo. E no ano seguinte numa segunda. Se entretanto ocorrer um ano bissexto, o avanço é de dois dias.
Os anos bissextos ocorrem cada quatro anos, nos anos múltiplos de 4, excepto se forem anos múltiplos de 100 (1900 não foi bissexto) e não múltiplos de 400 (cuidado, que 2000 foi bissexto).
Com algumas excepções, resultantes desta questão da mudança de século, o calendário repete-se cada 28 anos.
Cada um de nós assistirá em média a umas três repetições de calendário.
Como os meses não têm todos o mesmo número de dias, vão começando por um dia da semana diferente obedecendo a uma regra menos intuitiva. Em média, os meses vão-se repetindo de sete em sete. Assim, por exemplo, haverá em média uma sexta-feira 13 de sete em sete meses, ou seja, uma ou duas por ano.
Tudo isto é muito bom, retira-nos da monotonia, obriga-nos a pensar em que dia acaba o mês, em que dia calha o Natal cada ano, em que dia celebramos o aniversário.
O actual calendário - gregoriano - foi introduzido em 1582 pelo Papa Gregório, e não obstante a sua beleza intrínseca, nomeadamente para quem gosta da subtileza dos números, do inesperado dos dias da semana, tem motivado que gente cinzenta, que acha que todo se deve repetir anualmente, trimestralmente, semanalmente, sem estas pequenas surpresas, sem este sal da vida, proponha regularmente alterações ao calendário.
A Liga das Nações há menos de 100 anos, em 1923, estudou este assunto, e considerou 185 ideias de calendários, tendo chegado ao chamado calendário universal, com 4 trimestre de 91 dias, anos de 364 dias, 52 semanas exactas, mais um ou dois dias extra calendário por ano, os dias universais.

Foi um esforço inglório. Nunca foi adoptado. Felizmente. Os meus anos sempre à quarta-feira? A que propósito? Não terei o direito de os fazer em diferentes dias da semana e saborear cada um? Não são todos iguais...

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Realidade virtual

Diz-se que estamos na hora da realidade virtual, dos equipamentos de realidade virtual, de um novo mundo virtual que se sobrepõe à realidade física, palpável, terrena, de todos os dias.
No entanto, a realidade virtual é possívelmente a conquista mais antiga da humanidade.
O que é a memória, senão uma realidade virtual? Ou um texto escrito, um poema, um romance, uma história, que nos transporta para um universo só nosso, pelas mãos do seu autor? Ou uma imagem, uma fotografia, uma pintura? Ou um som, a abertura de uma sinfonia, que nos leva para uma sala onde nunca estivemos, um ruído de fundo, uma voz que canta? Um cheiro. Um toque.
Um livro não é um papel impresso. Uma pintura não é uma tela pintada. A realidade "real" é essencialmente virtual.
E esses equipamentos que se anunciam são enormes limitações a esta vivência, porque tentam fixar a nossa atenção, a nossa imaginação, reduzindo-a a um cenário imposto, estranho, contraproducente.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Construir

Um país constrói-se a pensar no presente e no futuro. E a natureza ensina-nos a planear e prever.
A cortiça de hoje, o azeite de hoje, resultaram de decisões de pessoas que viveram antes, mas com essa visão de futuro.
Uma ponte bem feita, é feita para durar, para respeitar a natureza, e para preservar os valores estéticos do local onde é construída.
A escola também tem de pensar que está a formar jovens para viver num mundo que apenas podemos imaginar ou tentar prever. É esse o grande desafio.
Com as ferramentas de hoje, há matérias que aprendemos na escola e que agora são absolutamente dispensáveis, e há outras que a escola não nos ensina e que deveria ensinar.
Se há sessenta anos eu sabia de cor todas as estações e apeadeiros dos caminhos de ferro portugueses, porque não havia um Google, não fazia a mínima ideia de como evoluiria a mente humana perante as novas ferramentas sociais, que nos permitem comunicar instantâneamente com quem quisermos, comentar o que os outros dizem, tentar induzir os outros em erro, ameaçar, incomodar, criar personagens e notícias falsas, a coberto da sensação de impunidade que estar atrás de um ecrã ocasiona.
Este mundo altamente interactivo é muito perigoso, e todos temos de ter consciência de que estamos a construir instrumentos ao mesmo tempo aliciantes e com grande poder de destruição.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Arrumar a casa

Nós por cá sempre gostamos de fazer o que nos passa pela cabeça, sem pensar nos outros e nem mesmo no nosso próprio futuro!
Depois, somos um país sem estradas, só com ruas, sem qualquer sentido de organização, mesmo de defesa do nosso próprio bem estar. Famílias isoladas, pessoas isoladas, custos caríssimos, qualidade de vida péssima.
Sempre que viajo de avião, gosto de olhar para o terreno e ver como noutros países as pessoas organizam as suas casas, em pequenas vilas ou aldeias, à volta de uma praça, onde há um jardim, uma escola, um centro social, e vizinhos, que se ajudam mutuamente, e que são a primeira linha de apoio a cada um, contra o isolamento.
Tudo isto contrói-se lentamente, com outras mentalidades, com espírito de partilha, pensando menos no imediato e mais a médio prazo.
Mas tudo isto esbarra com a política, com o sistema político, com a necessidade de ganhar eleições no imediato, com obras disparatadas, mais uma piscina, mais uma rotunda, mais uma festa, mais um fogo de artifício, mais um adiamento do essencial.
Todos nós somos capazes de identificar dezenas, centenas, milhares de obras inúteis, de dinheiro mal gasto em benefício de alguns, do conluio entre o político, o construtor e o gerente bancário, e um país sucessivamente adiado.
O facto de esta mudança de mentalidades não se poder fazer de um dia para o outro torna-a ainda mais urgente!

domingo, 1 de janeiro de 2017

2017

Estamos em 2017!
Sobrevivemos mais um  ano, o País continua a respirar, o mundo deixou de olhar para nós com demasiada atenção, está na hora de aproveitar.
Aproveitar para pensar menos no imediato e mais no que pretendemos para este colectivo chamado Portugal, como melhorar a qualidade dos nossos governantes, o funcionamento da justiça, a educação que proporcionamos aos nossos jovens, como tratamos os mais velhos.
Um País são regras, são sistemas, são organizações, mas são essencialmente pessoas, que têm o direito e o dever de sonhar.
E as pessoas estão a aprender a desconfiar dos políticos que sabem tudo e a seguir aqueles que lhes falam mais ao coração, 

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Máquinas de lavar

Há máquinas de lavar a roupa, há máquinas de lavar a louça, há máquinas de lavar automóveis, e há máquinas de lavar dinheiro. Dinheiro sujo. Dinheiro cuja proveniência precisa de uma explicação.
E há o outro lado deste mundo, os esconderijos onde se guarda o dinheiro que aguarda pela oportunidade de ser limpo.
O dinheiro sujo vem de negócios sujos, droga, prostituição, tráfego humano, de refugiados, falsificação, e outros métodos de que a mente humana é capaz, desde os tempos bíblicos.
Não há limites, quer nos métodos quer nos valores envolvidos.
Ouvimos todos os dias notícias relacionadas com estas actividades, desde as fraudes nas apostas desportivas às transferências de jogadores de futebol, desde os grandes negócios titulados por empresas offshore por valores fora de mercado, às malas carregadas de dinheiro que circulam de país em país, desde os negócios onde políticos e empresas se misturam alegremente, sem qualquer respeito pelas normas éticas mais elementares, às transações de prémios de jogos de casino, lotaria ou totoloto, etc.
Image result for money laundering cases
Os grandes buracos, os milhares de milhões que se sumiram dos bancos, cá e em todo o mundo, estão na sua maioria escondidos, em antecâmaras onde aguardam pela sua vez de regressar aos circuitos financeiros legais, pois desde que haja uma justificação para a exibição do dinheiro, este está limpo e pode ser utilizado livremente.
Seremos capazes de eliminar esta vergonha um dia? Não sei...

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Mau Estado

O Francisco Jaime Quesado escreve hoje no Público sobre os Cinco desafios para o futuro governo. Não concordo nada com a sua visão estratégica.
O que é essencial é que as pessoas entendam como funciona o mundo hoje, e que assumam os seus próprios projectos, e que o estado ajude aqueles que perderam os seus empregos que julgavam para a vida e que nunca mais recuperarão.
O que precisamos é de acelerar a transição de uma economia da ignorância que ainda vivemos para uma economia do conhecimento, que já tivemos há uns 600 anos atrás e que perdemos pelo excesso de (mau) estado, por uma máquina clientelar gigantesca, em grandes e pequenos negócios, dos ministérios às juntas de freguesia. Todos os dias tomamos conhecimento de novos casos.
O que não podemos é continuar a sustentar um mau estado que se desculpa sistematicamente com a crise económica, sem procurar as verdadeiras causas do nosso atraso e desespero.
Um exemplo gritante é o das Universidades, e aí estou totalmente de acordo com o Reitor da Universidade do Porto, quando nos tentou dizer que é preciso procurar noutro sítio as razões para o crescente abandono escolar no ensino superior. 


Há outras razões, tão ou mais importantes, como a ausência de motivação, o sentido de inutilidade, a frustração, a noção de que se escolheu um curso que conduz ao desemprego. 
Os jovens merecem melhores cursos, cursos que ofereçam perspectivas de trabalho num mundo em mudança. Deixem as Universidades adequar as suas ofertas a essas necessidades percebidas, em vez de as espartilhar em numerus clausus enganadores.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

O logro da tecnologia

O discurso de hoje, aquilo que a maior parte das pessoas pensa e diz, a todos os níveis, esquece que a tecnologia é um produto da mente humana, e deve estar ao seu serviço.
Pelo contrário, as pessoas aparecem como que "escravas" da tecnologia, do seu uso, independentemente da utilidade que lhe atribuam, e desvirtuando completamente a noção de tecnologia como servindo de apoio à sua actividade.
Encontro todos os dias casos deste endeusamento da tecnologia, com consequências e custos gravíssimos, ainda por cima mal compreendidos pelos fautores dos excessos.
As tecnologias educativas serão um dos exemplos que melhor conheço, mas poderíamos falar também das tecnologias médicas, por exemplo.
A confluência de vendedores de produtos tecnologicamente "avançados" com utilizadores com expectativa de melhorar a forma como realizam as as suas tarefas profissionais, e com o dinheiro de terceiros, normalmente dos nossos impostos, produz uma mistura explosiva, de que tanto pode resultar distribuir milhares de quadros interactivos multimédia pelas nossas escolas do ensino básico e secundário, ou computadores pelos nossos tribunais, ou equipamentos que nunca serão utilizados por certos hospitais.


E assim, hoje, não se olha para o doente, prescreve-se uma bateria de exames, não se ensina aos estudantes a vantagem de um suporte visual para comunicar com uma audiência, ensina-se Prezi acefalamente, porque é moda, não se pensa como despertar o pensamento computacional nos nossos miúdos, dá-se-lhes Scratch.
No entanto, a tecnologia é absolutamente indispensável para que possamos deixar de ser um País de escravos dos processos, da produção, da produtividade, para sermos um País da criatividade e da concepção, da valorização dos nossos recursos.
Só que este pequeno clique, esta mudança de mindset, requere que se pense, que se compreenda que as nossas atitudes, as nossas decisões, estão para além de todos os decretos do governo, mas resultam do exemplo, da influência, das redes, da vontade de perceber, e é isso que falta.
A tecnologia vem logo a seguir.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

2014

Muito se tem falado ultimamente em ajustamento, que é basicamente o que estivemos a fazer para mostrarmos aos nossos credores que podem acreditar em nós, que vamos cumprir com os nossos compromissos.
Foi por isso que o Estado teve de ajustar as suas receitas e despesas de uma forma brutal, desajeitada, criando receitas e cortando despesas de forma normalmente atabalhoada, mas preparando-se agora para entrar em 2014 de cabeça levantada, com um orçamento em que a receita primária cobre basicamente a despesa obrigatória e os encargos da dívida não andam longe de encaixar no défice negociado para 2014.
Não é uma situação brilhante, pois os cortes realizados foram muitas vezes à cega, originando situações de dificuldade extrema em alguns grupos sociais, e realmente temos uma dívida acumulada gigantesca, disforme, resultado do esbanjamento/desvio de dinheiros públicos para uma política de semear dinheiro, para cursos do FSE mais ou menos virtuais, para obras de regime como o Euro 2004, para uma rede de auto-estradas criminosa, para PPPs feitas sobre o joelho, para negociatas como a do BPN/SLN, obra prima do bloco central de interesses que nos tem governado, que será muito difícil pensarmos em amortizar essa dívida nos tempos mais próximos, pelo que teremos de contrair novos empréstimos à medida que os actuais vencem.
Mas estamos em condições de parar para pensar, como estão a fazer os Irlandeses.
Deixando a discussão da legimidade da nossa dívida total para daqui a mais algum tempo, é altura de acertamos os ajustamentos feitos no sentido de uma maior justiça social, e de apontarmos todas as baterias para o crescimento, e nomeadamente para a educação dos mais jovens. investindo aqui todos os parcos recursos que seja possível libertar.
Só que este primeiro passo, decisivo, exige, quase como condição previa, um governo de gente séria, em que em vez de profissionais de política, tenhamos cidadãos comprometidos, como parece que começa a ser possível vislumbrar.
Saúdamos 2014 como o possível ano da mudança, da esperança, do fim da loucura destes anos em que um grupo de especuladores, com a cumplicidade de governos incompetentes, quase destruíram Portugal e o Mundo ocidental.
Será? Vamos a isso!

domingo, 24 de novembro de 2013

Prova dos nove

Na minha opinião, não há profissão de maior responsabilidade que a de professor do ensino básico ou secundário.
Os jovens crescem e aprendem com os Pais e a família, com a sociedade em que vivem e com os seus professores e colegas, na Escola. Os jovens, todos os jovens, encontram um grande número de professores ao longo dos doze anos de escolaridade obrigatória, que serão, para o bem e para o mal, exemplos de vida que os marcarão durante muitos e muitos anos.
Os professores serão, ou deveriam ser, os mais preparados para ajudar os alunos a aprender, para além das matérias constantes dos currículos obrigatórios, a ser cidadão, a ser capaz de pensar e de ter opinião própria, a perceber como se organiza e cria o trabalho, como funciona a sociedade em geral, como se processa a sua evolução.
Marc Prensky, o homem que propôs o conceito de nativos digitais, dizia há bem pouco tempo no seu Twitter que "os professores não ensinam as matérias, ensinam os alunos"! Inteiramente de acordo. Alunos que convivem com a sociedade global de uma forma que a maior parte dos professores não compreende, e que muitos rejeitam, mas que é a realidade.
Se olharmos para a nossa história recente, reparamos que a nossa Escola, pesem embora os Magalhães, os quadros interactivos, os planos tecnológicos, não foi capaz de acompanhar a evolução social, o que faz com que muitos alunos rejeitem a Escola como espaço de convivência, de alegria, de busca de oportunidades.
As tecnologias, que muitos usam simplesmente para fazer as mesmas coisas do passado de uma forma diferente, e mais complicada, e não para fazer coisas novas, que sem as tecnologias seriam impossíveis, nunca foram vistas de uma forma transversal, e acabaram por remeter os professores de Tecnologias de Informação e Comunicação para um canto.
Michael Gove, Ministro da Educação do Reino Unido, fez em 11 de Janeiro de 2012 um discurso notável, que deveria ser leitura obrigatória para todos os educadores, e que se foca especificamente nesta questão. Como ele diz a determinada altura, "imagine the dramatic change which could be possible in just a few years, once we remove the roadblock of the existing ICT curriculum. Instead of children bored out of their minds being taught how to use Word and Excel by bored teachers, we could have 11 year-olds able to write simple 2D computer animations using an MIT tool called Scratch. By 16, they could have an understanding of formal logic previously covered only in University courses and be writing their own Apps for smartphones".
O currículo de TIC como factor de bloqueio! Pois é! E basta olhar para a história do nosso grupo 550 para percebermos que assim é! TIC deveria tratar de informação, de processamento de informação, de abstracção, de raciocínio abstracto, de despertar nos jovens o gosto por fazer coisas mais difíceis, por ir para além dos limites.
Infelizmente há professores que não estão à altura destes desafios. E daí, uma simples prova de avaliação de conhecimentos e capacidades que é um teste elementar da capacidade de raciocínio de cada um que quer ser professor assusta tanto.
E depois admiramo-nos de 435 000 jovens que nem estudam nem trabalham. É que para trabalhar é preciso trabalho, e para haver trabalho tem de haver empresas competitivas, e para haver empresas competitivas tem de haver jovens que sabem o que querem, e para isso é preciso bons professores...

sábado, 12 de outubro de 2013

Um cidadão global

Atrevo-me a dizer que atravessamos um tempo único, a que uns chamam crise, porque pensam ou querem que pensemos que é uma coisa passageira, mas que é efectivamente uma mudança brutal de paradigma, sem regresso.
Mudança de paradigma, de mentalidades, de um mundo centralizado, de cidadãos obedientes, cegamente obedientes, como a História nos mostra, para um mundo de cidadãos informados, uma sociedade informada, em que cada um decide pela sua cabeça, para o bem e para o mal.
E sem regresso, porque quem descobre o prazer de decidir o seu próprio destino não quererá nunca mais regressar ao passado, ao mundo obscuro dos que sabem e dos que obedecem.
Estamos na hora das redes, das redes informais, das dinâmicas sociais, dos fenómenos virais, da formação quase instantânea de opiniões que escapam aos velhos poderes, do falhanço dos modelos económicos baseados na oferta, da emergência de uma infinidade de novas oportunidades para que a maioria ainda não está preparada.
E estamos na hora de mudar o sistema político e a escola, o sistema político porque não se tem mostrado capaz de gerar governos que entendam o que se está a passar e que proponham estratégias que nos permitam preparar-nos para os grandes desafios, e a escola porque será aí, com os jovens, que as grandes transformações se poderão materializar.
Basta olharmos para os países que nos podem servir de exemplo para percebermos o atraso em que nos encontramos, e que é cada vez maior, infelizmente.
Um cidadão hoje tem de ser global, tem de olhar, ouvir, e comunicar com o mundo, tem de dominar línguas, tem de entender as novas formas de viver e de trabalhar, tem de saber usar os recursos infindáveis que a Internet lhe oferece, tem de estar informado, tem de aprender sempre.
Notam-se alguns sinais de mudança, nas novas empresas que florescem um pouco por toda a parte, no dia a dia nas ruas,  nos resultados das eleições autárquicas.
Mas a mudança será lenta, geracional, difícil, com custos, que temos de saber minorar.
Os políticos passam e as pessoas ficam.

sábado, 21 de setembro de 2013

NEET

Tudo tem uma sigla. Tudo o que é mau tem uma sigla.
Nos países da OCDE, fala-se repetidamente dos NEET, das pessoas neither in employment nor in education or training, que nem trabalham nem estão em educação ou formação, e especialmente das pessoas NEET no escalão etário 16-24 anos.
É obrigatório olhar para Education at a Glance 2013 - OECD Indicators.
Não é fácil encontrar estes números para Portugal. Encontrei números globais, e tabelas em que não ficamos muito bem. E encontrei números detalhados para a Inglaterra, por exemplo, que mostram o rigor que o público exige na análise do desempenho do seu sistema educativo.
E descobri também um mapa interactivo interessante no The Guardian.
A nossa indiferença perante estes indicadores revela bem o que se passa com os nossos jovens, que, abandonados à sua sorte, sem confiança nas ajudas da família, da escola, da sociedade, têm dificuldade em tomar as melhores decisões e em fazer as melhores escolhas, e em mais de metade dos casos optam por não ir além do ensino secundário.
Só há uma maneira de resolver este problema, e que consiste em dar aos jovens as ferramentas, a autonomia, a responsabilidade, o pensamento crítico, a criatividade, a exigência que lhes permita fazer escolhas informadas.
Não vale a pena tentar adivinhar as necessidades do País, nunca conduziu a nada, nem criar vagas nos cursos para aproveitar os recursos existentes, pois isso tende a reproduzir o inútil.
Só há um caminho. Por um lado, terminar com o numerus clausus no ensino superior, deixar as escolas oferecer os melhores cursos, promover os politécnicos do interior para que possam fixar os jovens e as populações, e interagir com os nossos vizinhos espanhóis. E por outro criar toda uma nova aposta no ensino secundário, com professores preparados, focados nas competências essenciais, comunicar, escrever, ter identidade, conhecer o território, saber viver em rede e com as redes, ter as ferramentas essenciais para saber escolher e decidir, para que mais jovens se entusiasmem e decidam pelo ensino superior, por animar as universidades e politécnicos, com projectos exigentes e desafiantes.
E está no hora de começar a preparar o próximo ano lectivo!

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Chegou a hora de fazer?

Todos sabemos que chegamos a um ponto da nossa caminhada colectiva, em Portugal, no mundo, em que não sabemos nem para onde ir nem como recuar até um ponto anterior, mais ou menos seguro, onde possamos pensar sobre o caminho a seguir.
Era bom podermos fazer esse regresso ao passado, talvez até aos últimos anos do século XX, em que tudo parecia correr bem, em que havia emprego, indústria, esperança...
Efectivamente, já estava tudo mal, já ninguém sabia como conciliar uma nova revolução industrial baseada nas tecnologias da sociedade da informação, na automação e na robótica, no desmantelamento das grandes unidades industriais, e na Internet, na globalização da economia, na desmaterialização, com uma população mal preparada para a mudança, com escolas e professores a tentar resistir a essas mudanças, com governos impreparados, a apostar em velhas ideias para resolver problemas novos.
Mas talvez pudessemos começar pelo princípio, pelos jovens, pelos jovens que irão ser professores dos jovens, e construir uma sociedade mais confiante, mais solidária, mais capaz de apostar no futuro e de criar mod(el)os de vida mais viáveis, baseados na circulação da informação e do conhecimento, assentes nos nossos recursos e na sua valorização.
E dar valor aos mais séniores, àqueles que o sistema atira bruscamente para a reforma, sem pensar por exemplo num modelo gradual de reforma parcial que lhes permita passar os seus saberes aos mais jovens de uma forma institucional e inteligente.
Utopia? Não! Fácil de pôr em prática? Também não. Inevitável? Sim, se queremos que a humanidade sobreviva de uma forma digna, pacífica, ordenada, aos desafios que se avizinham.
Deixo aqui uma ideia, simples de realizar, com poucos recursos, e que consiste em reunir jovens desempregados e séniores reformados em equipas mais ou menos homogéneas a quem é colocado o desafio de se organizarem em empresas viáveis e de as colocar em movimento.
Há tantos espaços, em todas as cidades e vilas, desde centros comerciais abandonados até escolas e tribunais sem uso, que poderiam ser os embriões destas novas empresas.
Para fazer o quê? Mas quem melhor que elas para o determinarem?
E o dinheiro necessário será mínimo.
Alguém quer conversar sobre isto num dos próximos dias?

sábado, 16 de março de 2013

Onde está a luz no fim do túnel?

Pois é. Parece que paramos, que desistimos, que nos sentamos no chão, de costas, à espera.  De quê? Não sabemos. Nem sabemos. Não pode ser muito pior, não é?
Mas pode, graças aos nossos "governantes", todos, aqueles que "elegemos", sem nos erguermos contra a tirania dos partidos, que escolhem os "eleitos", que partem e repartem tudo o que nos podem retirar, sem contemplações, sem respeito, sem cumprir o dever de governar, de apontar um caminho.
Graças ao fim do Escudo, que servia para repartir os custos da nossa ineficiência de uma forma mais equlibrada, mas que não servia para alguns, os que se apropriam das economias de todos, e para quem só serve uma moeda forte, que não desvalorize.
Graças à forma como os sucessivos governos não olharam de frente para a questão do emprego, da criação de empresas, dos sectores estratégicos, da educação, da cultura, dos valores que podem fazer a diferença.
Como é possível uma Nação com quase mil anos de história se entregar nas mãos desta gente ignorante, e não se revoltar, não se libertar, não escolher outro caminho?
Lembremo-nos ao menos de Gedeão.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

E não se muda o sistema eleitoral?

Não consigo perceber o que se passa na cabeça destes seres que se apoderaram das nossas instituições e que nada fazem no sentido de mudar o nosso sistema político, para que possamos passar a escolher os melhores para o desempenho dos cargos de governo.
Será que estão convencidos que conseguem perpetuar o sistema existente, que não perceberam que estão possivelmente perante a última oportunidade para o mudar de uma forma elegante, que a alternativa não será esperar mais tempo mas pura e simplesmente chegar à mudança através da força, exercida de uma forma imprevisível, com consequências desagradáveis para alguns ou muitos?
E não seria tão fácil limpar o governo das figuras lamentáveis que por lá andam, mudar radicalmente a lei eleitoral para que os nossos representantes passem a ser eleitos nominalmente, um por um, sem a protecção de um partido, e deixar o presidente da República convocar eleições para um parlamento novo, em que cada um representa uma parte precisa da população, que se veria toda representada nesse parlamento?
Membros do parlamento capazes de olhar para os nossos problemas mais básicos, dos desempregados, dos reformados, do desnorte do nosso sistema de ensino, e de eleger um governo capaz de adoptar as medidas paradigmáticas capazes de transformar as mentalidades e de criar de imediato uma nova esperança para todos.
E uma justiça em que as pessoas acreditem, que não proteja os fortes.
Não estará tudo aí, ao virar da esquina?!

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

71:45 são 72 horas!!!

De acordo com o JN de ontem, segundo um "professor na Faculdade de Engenharia do Porto e docente das cadeiras de Estatística e Gestão da Manutenção, os dragões cumpriram a lei, mesmo que a diferença entre um encontro e o outro tenha sido de 71 horas e 45 minutos. "O tempo mede-se e não se conta", começa por dizer, ao JN, para abordar o que está escrito no artigo 13.1 do Regulamento da Taça da Liga: "Quem fez a lei definiu uma precisão à hora e não ao minuto. A partir do momento em que a precisão é a hora, 71 horas e 45 minutos são 72 horas".
Já tinha usado este argumento uma vez, em minha casa, num dia em que cheguei à 20:15 e tentei convencer a minha mulher que tinha chegado às 20, porque ela não tinha especificado os minutos. Mas não resultou. Aliás, ainda tentei usar o argumento do quarto de hora académico, mas também sem êxito. O ponteiro dos minutos não jogou a meu favor.
Mas também não sou professor de estatística. Navego noutras águas mais complexas.
Só mesmo na Liga é que poderá resultar. Já agora, podiam dar aos árbitros uns cronómetros só com o ponteiro das horas?

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Educar os nossos jovens

Razões profissionais têm-me levado a conhecer com alguma profundidade o estado do nosso ensino básico e secundário, onde, a par de escolas e professores extraordinários, tenho encontrado situações difíceis, daquelas que me fazem pensar que ainda estamos muito longe de termos todas as escolas ao serviço dos jovens e viradas para o futuro.
O sistema de ensino, ao nível dos mais jovens, assenta na cooperação de três pilares, a escola, a casa e a sociedade, que todos sabemos estão em crise profunda.
A casa é o dormitório, o sítio de todas as dificuldades, da falta de tempo, da falta de dinheiro, da falta de disponibilidade para permitir ao jovem realizar em sossego os trabalhos para casa que lhe foram propostos, sob a supervisão dos pais, naturalmente, e depois brincar, crescer, de forma saudável.
A sociedade, a TV, as notícias, são os heróis de pés de barro, de um dia, capas de todos os jornais e revistas, o elogio dos comportamentos mais desviantes, a inexistência de canais informativos destinados a ajudar os mais interessados, jovens ou adultos, a encontrar os caminhos para uma vida positiva.
A escola fica assim com a missão redobrada de ajudar os nossos jovens a crescer, a descobrir a realidade, a aprender a pensar, a ser capaz de analisar e decidir, antes de executar, em todas as situações.
Este ciclo, analisar - decidir - executar, deve ser treinado em todos os momentos, seja no caso mais simples de um jogo de futebol, seja na resolução do problema mais complexo.
Fico assim muito, muito descontente, quando vejo um professor entregar aos alunos da sua turma uma ficha de trabalho que não é mais do que um conjunto de tarefas elementares, caídas sabe-se lá de onde, e que os alunos devem executar acefalamente, sem terem lido um enunciado rigoroso, sem terem tido uma pequena discussão das alternativas, sem a participação da turma, sem dar aos alunos a oportunidade de ter a alegria de descobrir a solução e aprender.
Esta pouca crença na capacidade dos nossos jovens se interessarem e aprenderem, que deriva mais da incompetência de muitos professores e da sua incapacidade de dialogar com os jovens, de lhes propor desafios interessantes, de discutir soluções, é a doença mais séria do nosso sistema de ensino, aquela que deve ser tratada com toda a urgência, e custe o que custar.
Não há nada, não há emprego, não há interesses, que justifiquem destruir mais uma geração, limitada por professores e gestores que não sabem e que não sabem que não sabem.
Os novos docentes que estão a sair das universidades, com o grau de mestre, com provas dadas nas matérias da área da docência, com uma formação sólida em didáctica, com prática de investigação científica, estão preparados para enfrentar estes novos desafios de um mundo em mudança.
Só é preciso que tenham a sua oportunidade de provar que estão à altura desses desafios.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Ignited Minds

"I dedicate this book to a child who is studying in class 12. Her name is Snehal Thakkar. On 11 April 2002 when I reached Anand by road in the evening, it was under curfew following communal disturbances. The next day, at the Anandalaya Hugh School, while talking to the students, a question came up: "Who is our enemy?"
There were many answers, but the one we all agreed was correct came from her: "Our enemy is poverty."
It is the root cause of our problems and should be the objectof our fight, not our own."
São as primeiras palavras de um livro cujo título é Ignited Minds, que comprei em 2005, na Índia, e cujo autor é A.P.J. Abdul Kalam, que muitos não conhecerão.


A.P.J. Abdul Kalam é um cientista indiano que, entre 2002 e 2007 serviu como 11º Presidente da Índia. Ouvi-o em duas intervenções dedicadas à aposta da Índia nos jovens, e ao papel dos jovens na construção daquele grande País. É um ser extraordinário, que coloca todo o seu esforço em levar os estudantes e os jovens a acreditar que valerá a pena serem cidadãos de uma India desenvolvida, e que para isso devem ser responsáveis e esclarecidos.
A India é um País imenso, com uma população de 1200 milhões de habitantes, pobre, independente desde 1947, que só um projecto com uma grande força será capaz de transformar numa nação nova e poderosa.
Noutro livro, India 2020: A Vision for the New Millenium, Kalam aponta o caminho do conhecimento para a construção dessa nova super-potência.


Controverso, como sempre é quem se propõe alterar o estabelecido, Kalam continuou depois do final do seu mandato o seu hábito de interagir regularmente com os jovens.
Considero este exemplo fantástico, e penso que em Portugal não será diferente, que o caminho será levar todos os jovens sem emprego, desmotivados, a acreditar neles próprios e a tomar nas suas mãos o seu futuro. Para que imagens como estas desapareçam definitivamente da India, e de Portugal.

From Passagem pela Índia