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domingo, 10 de maio de 2020

R índice 0 e R índice t

Não sou epidemiologista, nem matemático, mas estudo sistemas complexos, sistemas com grande número de variáveis e de relações, e formas de os analisar.
Interesso-me especialmente por sistemas sociais complexos, envolvendo actores humanos, cada um decidindo pela sua cabeça, tendo em conta as suas crenças, os seus desejos e as suas intenções.
O contágio numa população, seja de uma doença ou de uma ideia, é um problema complexo, envolvendo muitas variáveis difíceis de controlar, como hoje todos percebemos olhando para a pandemia do CoVid-19.
E todos, políticos, jornalistas, comentadores, falam do R0 como se fosse uma entidade do conhecimento geral, algo de trivial que temos a obrigação de conhecer e entender.
Mas basta assistir às perguntas numa conferência de imprensa da DGS para se perceber que o conhecimento é parco.
Claro que há literatura e documentação, até em Português, cuja leitura seria útil para melhorar a informação que nos é servida à hora do almoço, mas aparentemente isso pouco interessa.
Uma fonte muito útil, em português legível, é o blogue de Tiago Charters de Azevedo, doutorado em Física-Matemática, professor do ISEL, que trata destes e de outros assuntos de uma forma acessível a todos. (ver fonte i))
Encontrei neste blogue a figura seguinte (entre muitas outras)


que mostra a evolução da taxa de transmissão R ao longo do tempo na região Norte. Pois claro! R0 é o valor de R no momento 0 e Rt é o valor de R no momento t. t é o índice.
E como se calcula este Rt, o valor actualizado da taxa de transmissão no momento t? Como sabemos, em média, quantos contágios provoca um infectado no dia t?
Curiosamente, um dos artigos mais citados para este cálculo tem um dedo português, ou melhor, dois, de Luís Bettencourt, membro do Santa Fe Institute, e Ruy Ribeiro, actualmente director do Laboratório de Biomatemática da FMUL. (ver fonte ii))
O cálculo é complexo, e recursivo, tem de assumir qual será o tempo característico de propagação (TCA assume 7 dias) e a partir daí fazer uma estimativa de Rt com base no número de casos do dia t e no histórico anterior, usando (mais fácil dizer que fazer...) probabilidades condicionadas, as velhas fórmulas de Bayes.
Um fonte de inspiração será o código publicado por Kevin Systrom (fonte iii)).
Fica aqui um desafio...
Fontes:
i) Tiago Charters de Azevedo, Rt: previsões para que te quero (2020)
ii) Bettencourt LMA, Ribeiro RM (2008) Real Time Bayesian Estimation of the Epidemic Potential of Emerging Infectious Diseases. PLoS ONE 3(5): e2185. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0002185

sábado, 9 de maio de 2020

CoVid-19 update Europa

Agora que há a percepção de que o Coronavírus viajou para a Europa via Milão, a cidade das feiras, e possivelmente via outras cidades da Europa central devido às férias do Ano Novo Chinês que muitos vieram passar junto das comunidades emigrantes, e que se disseminou devido às férias na neve, à Liga dos Campeões, aos concertos, às manifestações, e principalmente devido a uma tardia imposição do isolamento social que permitiria pelo menos parar para pensar, chegou a hora de olhar para as ondas que atravessaram alguns dos países.
Esta figura mostra os casos por dia e por milhão de habitantes em sete países europeus:


Os dados são os obtidos do Worldometers, e mostram bem, por um lado, que estas primeiras ondas estarão a passar, e por outro, que nos últimos dias Espanha e Portugal têm sobressaído negativamente a este respeito, talvez por algum facilitismo característico dos povos ibéricos...
A Grécia, por outro lado, tem números que são um décimo dos números dos outros países, o que é notável.
Também é possível relacionar os números de casos com o número de óbitos, neste caso de todos os países europeus com mais de 1000 casos. São trinta e cinco, no total, e a sua localização neste espaço bidimensional


revela a existência de um numeroso grupo de países, entre os quais Portugal, que ficaram abaixo dos 3000 casos e dos 200 mortos por um milhão de habitantes, enquanto que apenas onze estão fora deste grupo.
Caso para pensar...
Fontes:
i) Worldometers

CoVid-19 update Portugal

Vou manter aqui, com alguns comentários, gráficos e mapas actualizados sobre a evolução da pandemia em Portugal e no mundo, bem como alguns apontadores para os sítios que considero mais úteis para quem gosta de fazer as suas próprias previsões e tomar as suas próprias decisões, independentemente das sugestões das autoridades, que temos o dever de obedecer, mas não de seguir...
O meu primeiro gráfico é sempre o dos casos diários acumulados c(n) e das suas variações:


A azul estão os casos diários d(n) = c(n) - c(n-1) e a verde a variação de casos diários entre dois dias consecutivos v(n) = d(n) - d(n-1), ambos com valores na escala da direita.
Os casos diários sofrem de um variabilidade semanal, dias com mais ou menos testes, dias com mais ou menos registos, de forma que uma média móvel semanal do número de casos pode filtrar certos fenómenos ruidosos com frequência semanal:


Nesta figura estão os casos diários do gráfico anterior, agora sob a forma de barras e uma linha azul que representa a referida média móvel a sete dias, que claramente exprime melhor uma tendência.
Outro gráfico que produzo regularmente é o dos casos acumulados por região, sendo aqui visível que cerca de 60% dos casos a nível nacional ocorrem na região Norte


Naturalmente, dos doze concelhos com mais de 500 casos, dois estão na região de Lisboa e Vale do Tejo, dois na região Centro e os restantes oito na região Norte


Nesta representação, o eixo horizontal representa casos/1M de habitantes e o eixo vertical representa casos/km2, enquanto que o tamanho dos discos é proporcional ao número absoluto de casos.
Cada um saberá interpretar esta representação.
Fontes:
ii) DSSG-PT Github

quarta-feira, 18 de março de 2020

Coronavírus

E de repente o mundo inteiro é uma enorme rede de contágio. Uma rede com 7800 milhões de vértices, em que, desta vez, o que conta é a proximidade física e não a ligação virtual.
Um vírus novo salta de um animal para um humano, talvez num mercado de Wuhan, uma cidade chinesa na província de Hubei e depois alastra por todo o mundo de uma forma imparável, saltando de humano para humano, viajando nos transportes públicos, nos aviões, nos navios de cruzeiro, de tal modo que em três meses chegou aos cinco continentes.


Hoje, são mais de 205000 os infectados, e já são mais os casos activos na Europa que no resto do mundo! Um estilo de vida que se baseia muito no contacto social é o cenário ideal para a propagação do vírus. Uma festa, uma conferência, um evento desportivo, são uma oportunidade para o vírus saltar para umas dezenas de hospedeiros novos, que por sua vez vão contagiar outros, e outros, muito antes de serem detectados.
Há muitos dados publicados, muitas teorias sobre o que vai acontecer no futuro, mas gostava muito de saber onde cada um daqueles 205000 foi infectado e onde estava quando foi detectada a infecção. Estes mapas ajudariam muito a preparar as respostas dos sistemas de saúde e a retirar outras lições que os dados disponíveis de uma forma bruta não permitem.
Será que os sistemas de geo-referenciação da Google, do Facebook, ou das operadoras de telecomunicações, não podem libertar esses dados?

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

O ano 0 e a questão das décadas

O sistema de numeração dos anos não é perfeito.
O tempo é marcado pelas voltas da Terra ao Sol, pelas estações do ano, pelos dias, pelas fases da Lua, pela posição dos astros, fenómenos periódicos que sempre intrigaram filósofos, pensadores e cientistas, mas faltava uma origem do tempo com algum significado popular.
O calendário actual baseia-se no calendário Juliano, criado por Júlio César, esse mesmo, com doze meses e 365 dias, e alguns acertos, que decidiu que o ano 1 (1 dC - depois de Cristo) seria o ano em que nasceu Jesus Cristo, e assim pôs ordem e deu uma referência à contagem do tempo, mas não sendo matemático, não sendo o zero um número 'digno', entendeu que o ano anterior a esse seria 1 aC (antes de Cristo), e não o ano 0.
Para fazer com que os dias e meses batessem certo com os textos bíblicos, e outros, o Papa Gregorio XIII decidiu, no século XV, ouvido os sábios, introduzir um ajuste de 10 dias ao calendário, para o equinócio da Primavera passar a ser à volta de 21 de Março, e para que a Páscoa, que é no primeiro domingo depois da primeira Lua cheia, depois daquele equinócio, ocorresse normalmente nos primeiros dias de Abril.
Hoje pensa-se que Jesus Cristo terá nascido por volta de 2 aC. e terá sido crucificado em 7 de Abril de 30 dC ou 3 de Abril de 33 dC.
Outra questão é a da contagem das décadas, dos séculos e dos milénios.
Uma década são dez anos consecutivos. A década de 70 começou em 1970 e terminou em 1979, os anos vinte são a década que se iniciou em 1920 e terminou em 1929. Nestes casos, as décadas têm  o algarismo das dezenas constante.
Agora se quisermos contar as décadas desde a primeira (ver figura), a 202ª década dC vai terminar no final de 2020, e daqui decorre uma discrepância entre esta e a outra forma de olhar para as décadas: os anos vinte do actual milénio começam em 2020, mas a 203ª década dC inicia-se um ano depois, em 2021.
Pela minha parte, não tenho problema em que se festejam todas estas décadas...

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Não temos tempo?

Todos os anos mostro aos meus alunos a versão actualizada do que acontece num minuto de Internet:
Faz-nos pensar que acontecem muitas coisas, demasiadas coisas, dirão alguns, e que cada minuto que paramos a olhar para um acontecimento qualquer faz-nos perder uma infinidade de acontecimentos...
Só que sempre foi assim, sempre aconteceram muitíssimas coisas em simultâneo, com a diferença de que a velocidade de circulação da informação, das notícias, era muito menor.
(eu próprio estou a escrever esta nota ao mesmo tempo que ouço Corbyn a apresentar o seu Labour Manifesto na Sky News, compro dois livros no Book Depository, despacho o meu e-mail, olho para o Facebook, etc)
Temos esta necessidade irresistível de fazer browsing pelas páginas de todos os órgãos de informação e não nos determos num ou dois deles, perdemos o gosto pela informação sequencial, saltamos, gostamos de zapping, dos programas gravados, de ver a 1.5x, de avançar "o que não interessa" para chegarmos mais depressa ao fim da história, não temos paciência para um filme completo, ou para uma peça de teatro, em tempo real.
A não ser que sejam realmente bons, e então até gostamos de repetir, de descobrir novos pormenores, como se estivéssemos a apreciar uma fotografia.
Então, porque estranhamos a fragmentação dos partidos políticos, dos sindicatos, dos movimentos "inorgânicos", dos coletes amarelos, do tsunami democrático, dos parlamentos, quando tudo isto é previsível, num tempo do WhatsApp, das comunicações instantâneas e globais, em grupos abertos e fechados, onde tudo se pode combinar?
Eu acho que há tempo para tudo, para a análise e para a síntese, para debater e para estabelecer consensos, nos sítios certos.
E não gosto de ver o poder político a interferir, a dizer quem são os bons e os maus, qual polígrafo selectivo destinado a convencer os menos preparados - não será o sistema político que precisa de ser reformado?

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Artistas

Reparei hoje que há mais de dois anos que não escrevo aqui... tenho andado por outras paragens...
No entanto, relendo as últimas mensagens, parece que nada mudou.
O governo, continua a espremer tudo o que pode, e assim tentar salvar a pele. Sempre a tratar das consequências, da pobreza, das reprovações, do colapso do SNS, dum estado em que só a autoridade tributária funciona.
As causas, que estão nas deficiências em educação, cultura, civismo, respeito pelos outros, etc, não interessam.
Casa da Música, Porto
A oposição, e a oposição da oposição, andam completamente perdidas, sem propostas motivadoras e agregadoras, à espera de uma solução.
Um desafio imenso, para gerações... 

domingo, 11 de junho de 2017

Para o ano o S. João vai ser num domingo!

Um ano dura 52 semanas mais um dia, ou mais dois dias, nos anos bissextos.
Assim, se este ano o S. João é num sábado, para o ano vai ser num domingo. E no ano seguinte numa segunda. Se entretanto ocorrer um ano bissexto, o avanço é de dois dias.
Os anos bissextos ocorrem cada quatro anos, nos anos múltiplos de 4, excepto se forem anos múltiplos de 100 (1900 não foi bissexto) e não múltiplos de 400 (cuidado, que 2000 foi bissexto).
Com algumas excepções, resultantes desta questão da mudança de século, o calendário repete-se cada 28 anos.
Cada um de nós assistirá em média a umas três repetições de calendário.
Como os meses não têm todos o mesmo número de dias, vão começando por um dia da semana diferente obedecendo a uma regra menos intuitiva. Em média, os meses vão-se repetindo de sete em sete. Assim, por exemplo, haverá em média uma sexta-feira 13 de sete em sete meses, ou seja, uma ou duas por ano.
Tudo isto é muito bom, retira-nos da monotonia, obriga-nos a pensar em que dia acaba o mês, em que dia calha o Natal cada ano, em que dia celebramos o aniversário.
O actual calendário - gregoriano - foi introduzido em 1582 pelo Papa Gregório, e não obstante a sua beleza intrínseca, nomeadamente para quem gosta da subtileza dos números, do inesperado dos dias da semana, tem motivado que gente cinzenta, que acha que todo se deve repetir anualmente, trimestralmente, semanalmente, sem estas pequenas surpresas, sem este sal da vida, proponha regularmente alterações ao calendário.
A Liga das Nações há menos de 100 anos, em 1923, estudou este assunto, e considerou 185 ideias de calendários, tendo chegado ao chamado calendário universal, com 4 trimestre de 91 dias, anos de 364 dias, 52 semanas exactas, mais um ou dois dias extra calendário por ano, os dias universais.

Foi um esforço inglório. Nunca foi adoptado. Felizmente. Os meus anos sempre à quarta-feira? A que propósito? Não terei o direito de os fazer em diferentes dias da semana e saborear cada um? Não são todos iguais...

domingo, 19 de março de 2017

Não sabem que não sabem

Estou convencido que toda esta azáfama à volta da operação Marquês resulta directamente do fracasso das investigações do caso Freeport, já que o ónus de outro insucesso recaíria directamente sobre a equipa de procuradores e investigadores, onde há elementos comuns aos dois casos.
Mas não acredito que estes crimes, que envolvem trocas de informação, pagamentos, ocultação de provas, dissimulação de operações, redes de empresas, reais ou fictícias, offshores, gente especialista neste universo, profissional da realização de operações obscuras, no limite da legalidade, programas informáticos que geram automaticamente operações sobre operações, milhões de e-mails cuja leitura pelos investigadores do DCIAP é morosa e difícil, possam ser facilmente identificados e confirmados.
Aquela migração dos headquarters do grupo GES para um hotel do Estoril denotava o volume e a complexidade das operações que estes financeiros são capazes de originar.
No entanto, hoje, nas nossas principais universidades, e nomeadamente nas três clássicas, há know how que poderia contribuiria decisivamente para a desmontagens destas operações complexas.
O seu não envolvimento nestas investigações assusta-me.
Os maiores ignorantes são os que não sabem que não sabem, e esses, encontramo-los todos os dias e em toda a parte.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Um novo sistema político

Precisamos de um novo sistema político, mais leve, que aproxime os eleitos dos eleitores, sem a intermediação perniciosa dos partidos.
Os partidos, todos, diria, consideram que os eleitos são seus representantes, pessoas às suas ordens, que se devem limitar a proceder e a votar de acordo com as directivas que recebem, sem discutir, sem direito a voz própria.
Mas os eleitos, com programas, representam os seus eleitores, e não os partidos, e devem ser julgados, individualmente, pelo que fizeram, ou deixaram de fazer, no fim de cada mandato.
Os eleitos podem, ou devem, diria, estar comprometidos com ideias ou programas de partidos, que ajudem a formar correntes de opinião e ajudar a discussão. Mas só isso.
Admiro o sistema inglês. O país está dividido em circunscrições eleitorais, tantas quantas os membros do parlamento, e cada uma elege o seu. A uma volta, ponto final. Se falecer, se ficar impedido, elege-se outro. Não há suplentes, não há listas, não há políticos à boleia.
Costuma apontar-se que este sistema de listas uni-nominais, sem segunda volta, concentra os votos em dois partidos, como se fosse o sistema que condiciona os eleitores e não os eleitores que usam o sistema. Mas nada é mais falso. Basta ver quantos partidos participaram nos debates eleitorais nas últimas eleições gerais, e a composição dos últimos parlamentos.
Esta pureza do voto representativo, o meu membro do parlamento, eleito sem segunda volta, sem arranjos, existe desde a Magna Carta, com pequenas variações, e está na base da rejeição pelos ingleses do parlamento europeu, dos parlamentares eleitos por listas, e dos comissários europeus, gente que nem sequer foi submetida a um escrutínio.
Sou daqueles que há muito tempo defende a adopção deste sistema em Portugal, sem círculos nacionais, ou outras heranças da partidocracia reinante.
Vivi alguns anos em Inglaterra. Assisti a grandes batalhas eleitorais. Vi a senhora Thatcher ser eleita. Vi o sistema em pleno funcionamento. E não tenho dúvida que seríamos muito melhor governados.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Realidade virtual

Diz-se que estamos na hora da realidade virtual, dos equipamentos de realidade virtual, de um novo mundo virtual que se sobrepõe à realidade física, palpável, terrena, de todos os dias.
No entanto, a realidade virtual é possívelmente a conquista mais antiga da humanidade.
O que é a memória, senão uma realidade virtual? Ou um texto escrito, um poema, um romance, uma história, que nos transporta para um universo só nosso, pelas mãos do seu autor? Ou uma imagem, uma fotografia, uma pintura? Ou um som, a abertura de uma sinfonia, que nos leva para uma sala onde nunca estivemos, um ruído de fundo, uma voz que canta? Um cheiro. Um toque.
Um livro não é um papel impresso. Uma pintura não é uma tela pintada. A realidade "real" é essencialmente virtual.
E esses equipamentos que se anunciam são enormes limitações a esta vivência, porque tentam fixar a nossa atenção, a nossa imaginação, reduzindo-a a um cenário imposto, estranho, contraproducente.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Perspectivas

Agora está na moda criticar as opções dos outros em vez de reflectir sobre as próprias opções.
Não alinho nesses peditórios, porque quero para mim próprio o direito de decidir sobre as minhas opções, sejam elas certas ou erradas, seja isso o que for.
Normalmente não há uma única alternativa, há múltiplas perspectivas, e aqueles que pensam o contrário estão redondamente enganados.
A dúvida faz parte da nossa própria natureza.
No entanto, há um "coro" de detentores da verdade nas chamadas redes sociais, seja a propósito da eleição de um qualquer presidente seja num fora de jogo futebolístico milimetricamente julgado.
Quando um meu aluno não sabe resolver um problema que eu lhe proponho, eu penso em primeiro lugar que eu próprio falhei, pois se eu lhe propus o problema é porque estava convencido de que ele o saberia resolver.
No jogo político, a situação é semelhante. Se os eleitores não escolhem a opção que os governantes em fim de mandato preferem, estes deveriam interrogar-se em primeiro lugar a eles próprios.
Ou será que alguém pensa que num mundo ideal todos terão a mesma opinião, as mesmas certezas, os mesmos desejos, as mesmas intenções?
Eu acho que não. Que o mundo é muito mais belo.
E que a incerteza é mesmo a única certeza.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Jornalismo

Não sou jornalista, mas sou leitor compulsivo de jornais, desde O Primeiro de Janeiro, que comecei a ler com quatro anos de idade, pelas mãos da minha Avó paterna. Lia tudo, desde a necrologia até às cotações dos títulos de dívida pública.
Entretanto, o mundo mudou várias vezes, mas continuo a comprar e ler diariamente o Público, porque gosto de ler notícias tratadas por bons jornalistas, com os factos verificados, com os títulos adequados, sem confusão entre notícia e opinião.
Ultimamente, o Público tem vindo a resvalar para um jornalismo com agenda que me desagrada, e tenho-o comentado regularmente. Gosto de ler opiniões, valorizo opiniões, independentemente de concordar com elas, mas não gosto nada de ser enganado, seja por notícias não verificadas, seja por plágio de outras notícias, seja por opiniões disfarçadas de notícias.
Dezanove anos depois, os jornalistas estão reunidos em congresso. Pouco noticiado, diga-se de passagem. Fico com a ideia de que estão a descobrir que o mundo mudou.
Claro que o mundo mudou, e toda a gente o sabe. A Internet mudou tudo, desde os taxis aos alojamentos, desde a compra de livros à formação de opinião, pondo em causa modelos de negócio baseados na intermediação, e estimulando o aparecimento de novos produtos e modelos de negócio.
Entretanto, os meios de comunicação social, que vivem muito da publicidade, deixaram a Google e o Facebook absorver grande parte dessas receitas, praticamente sem contrapartidas, e ainda não conseguiram desenhar esses novos produtos que permitirão aos melhores sobreviver.
Acho que vamos continuar à espera...

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Existe um mundo do outro lado

Este País que não cresce, que não tem ideias, que não tem políticos, que não se revolta, que espera com indiferença o pior e o melhor, que vive do futebol de bancada, dos insultos nos debates televisivos, das casas de segredos, dos crimes feitos novelas, das tricas, dos "famosos", parece que não tem emenda.
Estamos presos, não sabemos como passar para o outro lado, nem sabemos mesmo se haverá outro lado, mas há!
Há, mas o caminho é longo. Afastamo-nos muito, andamos entretidos a fazer o fácil, a pedir dinheiro emprestado e encaminhá-lo para o bolso de alguns espertos, sejam eles GES, BPN, amigos da CGD, titulares de cargos políticos que preferiram o caminho da corrupção, e que fizeram as leis que lhes permitiram "legalizar" os seus golpes, através de um estado monstro, através de obras de betão, planos de recuperação, insolvências fraudulentas, negócios inexplicados, empréstimos sem garantias, e uma lista infindável de artimanhas todas com o objectivo de desviar os recursos de todos para os bolsos de alguns.
Mas hoje, em que a ameaça de juros da dívida cada vez mais elevados, com um serviço da dívida verdadeiramente sufocante, esse caminho fica cada dia mais difícil.
Era bom pensarmos nisso!

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

O regresso das pessoas normais?

Quatro dos maiores tudólogos da nossa praça abriram as hostilidades.
Em 30 de Dezembro de 2016, Miguel Sousa Tavares escreveu no Expresso O ano da pós-verdade, no dia seguinte José Pacheco Pereira escreveu no Público A ascensão da nova ignorância, em 3 de Janeiro, Paulo Rangel brindou-nos, também no Público, com Redes sociais, populismo e democracia directa, e José Manuel Fernandes escreveu no Observador A culpa é toda das redes sociais. E já agora da máquina a vapor.
É o assunto do dia, do mês, do ano.
De todos os quadrantes, vêm todas as opiniões e as suas contrárias.
Os especialistas não acertam em nada, seja na economia seja na política.
E ainda bem.
Ao mesmo tempo, debate-se a Inteligência Artificial Artificial do Amazon Mechanical Turk, que nos transforma a todos em escravos de nós próprios, por meia dúzia de moedas.
Será o regresso das pessoas normais?

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Construir

Um país constrói-se a pensar no presente e no futuro. E a natureza ensina-nos a planear e prever.
A cortiça de hoje, o azeite de hoje, resultaram de decisões de pessoas que viveram antes, mas com essa visão de futuro.
Uma ponte bem feita, é feita para durar, para respeitar a natureza, e para preservar os valores estéticos do local onde é construída.
A escola também tem de pensar que está a formar jovens para viver num mundo que apenas podemos imaginar ou tentar prever. É esse o grande desafio.
Com as ferramentas de hoje, há matérias que aprendemos na escola e que agora são absolutamente dispensáveis, e há outras que a escola não nos ensina e que deveria ensinar.
Se há sessenta anos eu sabia de cor todas as estações e apeadeiros dos caminhos de ferro portugueses, porque não havia um Google, não fazia a mínima ideia de como evoluiria a mente humana perante as novas ferramentas sociais, que nos permitem comunicar instantâneamente com quem quisermos, comentar o que os outros dizem, tentar induzir os outros em erro, ameaçar, incomodar, criar personagens e notícias falsas, a coberto da sensação de impunidade que estar atrás de um ecrã ocasiona.
Este mundo altamente interactivo é muito perigoso, e todos temos de ter consciência de que estamos a construir instrumentos ao mesmo tempo aliciantes e com grande poder de destruição.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Arrumar a casa

Nós por cá sempre gostamos de fazer o que nos passa pela cabeça, sem pensar nos outros e nem mesmo no nosso próprio futuro!
Depois, somos um país sem estradas, só com ruas, sem qualquer sentido de organização, mesmo de defesa do nosso próprio bem estar. Famílias isoladas, pessoas isoladas, custos caríssimos, qualidade de vida péssima.
Sempre que viajo de avião, gosto de olhar para o terreno e ver como noutros países as pessoas organizam as suas casas, em pequenas vilas ou aldeias, à volta de uma praça, onde há um jardim, uma escola, um centro social, e vizinhos, que se ajudam mutuamente, e que são a primeira linha de apoio a cada um, contra o isolamento.
Tudo isto contrói-se lentamente, com outras mentalidades, com espírito de partilha, pensando menos no imediato e mais a médio prazo.
Mas tudo isto esbarra com a política, com o sistema político, com a necessidade de ganhar eleições no imediato, com obras disparatadas, mais uma piscina, mais uma rotunda, mais uma festa, mais um fogo de artifício, mais um adiamento do essencial.
Todos nós somos capazes de identificar dezenas, centenas, milhares de obras inúteis, de dinheiro mal gasto em benefício de alguns, do conluio entre o político, o construtor e o gerente bancário, e um país sucessivamente adiado.
O facto de esta mudança de mentalidades não se poder fazer de um dia para o outro torna-a ainda mais urgente!

domingo, 1 de janeiro de 2017

2017

Estamos em 2017!
Sobrevivemos mais um  ano, o País continua a respirar, o mundo deixou de olhar para nós com demasiada atenção, está na hora de aproveitar.
Aproveitar para pensar menos no imediato e mais no que pretendemos para este colectivo chamado Portugal, como melhorar a qualidade dos nossos governantes, o funcionamento da justiça, a educação que proporcionamos aos nossos jovens, como tratamos os mais velhos.
Um País são regras, são sistemas, são organizações, mas são essencialmente pessoas, que têm o direito e o dever de sonhar.
E as pessoas estão a aprender a desconfiar dos políticos que sabem tudo e a seguir aqueles que lhes falam mais ao coração, 

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Não há palavras

O País arde, pela incompetência dos políticos, dos que governam e dos que fiscalizam o governo, ou vice-versa, que vai dar ao mesmo. O facto de, desta vez, os comentários dos "representantes" dos bombeiros serem mais brandos só o confirma.
As finanças estão incendiadas, não vai haver dinheiro, não sabemos viver numa economia que não cresce, em que os bancos não pagam juros, em que o capital não é remunerado como antigamente. Mas ninguém fala nisso.
As pensões, baseadas exactamente num esquema de remuneração dos fundos acumulados, estão em perigo. Mas quem quer discutir isso? Há aquele estudo, do ministro muito entendido nestas coisas, e basta...
A economia não cresce, ninguém investe, não há ideias, um rumo, um caminho, uma luz, uma esperança, mas isso que interessa?
Estamos no grau zero da credibilidade, o próprio BCE está a preparar-se para nos largar, vale-nos apenas a nossa irrelevância. Mas não há razões para alarme!
O governo, os ministros, a oposição, os deputados, andam preocupados? Não! Estamos em Agosto!
Temos o que merecemos.
Não há palavras...

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Máquinas de lavar

Há máquinas de lavar a roupa, há máquinas de lavar a louça, há máquinas de lavar automóveis, e há máquinas de lavar dinheiro. Dinheiro sujo. Dinheiro cuja proveniência precisa de uma explicação.
E há o outro lado deste mundo, os esconderijos onde se guarda o dinheiro que aguarda pela oportunidade de ser limpo.
O dinheiro sujo vem de negócios sujos, droga, prostituição, tráfego humano, de refugiados, falsificação, e outros métodos de que a mente humana é capaz, desde os tempos bíblicos.
Não há limites, quer nos métodos quer nos valores envolvidos.
Ouvimos todos os dias notícias relacionadas com estas actividades, desde as fraudes nas apostas desportivas às transferências de jogadores de futebol, desde os grandes negócios titulados por empresas offshore por valores fora de mercado, às malas carregadas de dinheiro que circulam de país em país, desde os negócios onde políticos e empresas se misturam alegremente, sem qualquer respeito pelas normas éticas mais elementares, às transações de prémios de jogos de casino, lotaria ou totoloto, etc.
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Os grandes buracos, os milhares de milhões que se sumiram dos bancos, cá e em todo o mundo, estão na sua maioria escondidos, em antecâmaras onde aguardam pela sua vez de regressar aos circuitos financeiros legais, pois desde que haja uma justificação para a exibição do dinheiro, este está limpo e pode ser utilizado livremente.
Seremos capazes de eliminar esta vergonha um dia? Não sei...