terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O fim do emprego

Temos de encarar os graves problemas que a economia mundial atravessa como sinais de uma mudança de paradigma que é absolutamente inevitável e que deve ser desejada.
A economia do "direito ao emprego" acabou, e muitos nem notaram. Notaram os desempregados, as principais vítimas do sistema, e mais ninguém! O "direito ao emprego" é o "direito a ser explorado", e está a esgotar-se com a tomada de consciência de cada um de que pode tomar o futuro nas suas mãos, de que não há mais gente providencial, capaz de criar as fábricas e as organizações que vão "dar" emprego decente a todos, de que o futuro de cada um passa em primeiro lugar por ele próprio.
Esta mudança é cultural, pois não estamos preparados para a ideia de que para receber é preciso também dar, de que todos temos de contribuir para o futuro de todos. E exige um governo capaz, que trate dos assuntos verdadeiramente importantes. Que promova a discussão dos tópicos que afectam o nosso futuro. Que entenda que hoje já não é o tempo do hardware, e que começa também a não ser do software, mas sim do brainware, das ideias, da criatividade, do conhecimento. Da criação do próprio emprego.
São desafios fantásticos, e oportunidades fantásticas. Mas acreditamos que quem nos governa nos irá guiar por estes caminhos? Eu não...
Acredito mais nas pessoas, nos eleitores, na nossa capacidade colectiva. Na inteligência colectiva que nos levou ao último resultado eleitoral. Sim, porque perante as opções que os políticos nos apresentaram, qualquer outro resultado teria sido catastrófico!...

sábado, 14 de novembro de 2009

Legalidade não chega! Ética, senhores!

As leis nunca são perfeitas, já se sabe, e há sempre quem esteja pronto a desvirtuar o seu espírito, cumprindo-a à letra. Ocorre-me sempre o caso daquela equipa de ciclismo que dopava os seus ciclistas cirurgicamente para as concentrações das substâncias proibidas estarem sempre ligeiramente abaixo dos limites da lei, esquecendo completamente que assim estava a comprometer a saúde dos seus atletas. Era legal, mas não era obviamente ético. E às vezes falhava, ultrapassavam-se os limites...
Dizia o antigo ministro Pina Moura que a ética é a lei. Mas não é. A ética está no plano dos valores, que toda a gente entende, independentemente dos meandros das leis.
Usar o dinheiro de uma empresa pública para adquirir a um valor várias vezes superior ao valor de mercado um qualquer serviço, pode até ser legal, se tiverem sido cumpridas as regras que condicionam a aquisição de serviços por parte das empresas públicas, mas não é ético.
Usar o dinheiro de um banco para adquirir empresas por valores perfeitamente exorbitantes ou para conceder empréstimos de interesse duvidoso, pode ser legal, se tiverem sido cumpridos os regulamentos respectivos, mas não será certamente ético.
Como não será usar o dinheiro das autarquias em obras desnecessárias, ou autorizar a construção de edifícios que são verdadeiros atentados ao bom senso, por exemplo.
Fica sempre o manto da suspeita, dos interesses privados, do enriquecimento ilícito, do financiamento do futebol ou dos partidos.
É por isso que estou farto desta conversa de legalidade, legalidade, legalidade. Legalidade não chega! Ética, senhores!

domingo, 8 de novembro de 2009

Corrupções

Mas porque somos tão atrasados?
O Manuel Lima, um Português que prestigia Portugal, num estudo por ele realizado, mostra como num grupo de 20 países todos menores que nós em área e em população, nós conseguimos ser o último no que diz respeito ao produto. Somos o primeiro dos 20 em área e em população, e o vigésimo em produção per capita. Não é por sermos poucos ou pequenos que somos atrasados!
Somos atrasados porque nos atrasamos e não fazemos nada para recuperarmos dessa situação.
E não há nada mais preocupante do que o que se passa nas nossas escolas, pois sem uma educação integral para a vida, centrada no princípio de que viver em sociedade é dar e receber, não passaremos de miseráveis pedintes, na nossa casa, na nossa rua, no nosso País, no mundo. É que para receber, é preciso dar. E para dar é preciso saber construir.
Mas não, preferimos este assalto aos dinheiros públicos, de todos, por parte de alguns. Esta mistura de empreses públicas deficitárias, de obras públicas, de futebol, de interesses mesquinhos de alguns, de encobrimentos, de incapacidade do nosso sistema judicial, só mostra que o que resulta é a cunha, o esquema, a esperteza saloia.
Sem aprendermos a lidar com a corrupção, sem percebermos o verdadeiro cancro social que é esta atitude desleixada de deixar andar, nunca seremos melhores.
E os melhores nunca aceitarão o desafio de nos governar!

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O autocarro 102

Estou em Bucareste porque fui convidado para avaliar projectos para a ANCS - Autoritatea Nationala pentru Cercetare Stiintifica.
Em Bucareste, estou pela terceira vez, e a avaliar projectos, pela segunda.
Na primeira vez, tinha sido convidado pela UEFISCSU - Unitatea Executiva pentru Finantarea Invatamantului Superior si a Cercetarii Stiintifice Universitare.
Bucareste é uma cidade extraordinária, de que se vai gostando a pouco e pouco. Começa por ser medonha, enorme, confusa, e acaba sendo excitante, monumental, com uma vida própria surpreendente, dia e noie, de segunda a domingo.
Cheguei no domingo à noite, e logo reparei que todos os restaurantes bons estavam a abarrotar. Não consegui uma mesa no Caru' cu bere... nem nos outros que procurei. Acabei por ir ao simpático City Grill, no centro histórico. Jantei por 23 lei, menos de 6 euros, crepe de chocolate incluído...

Do aeroporto para o Novotel Bucharest City Centre, onde estou, usei o autocarro 783, em que um bilhete de ida e volta custa 7 lei, menos de 2 euros, e sai na Universitate, bem perto do hotel. Recuso-me a usar taxis, nomeadamente aqui, em que o preço é variável, embora esteja (quando está) anunciado na porta. Taxis sem preço afixado não são recomendados em nenhum caso. E a propósito, o brunch de domingo no Novotel custa 170 lei por pessoa (42 euros). No Hilton, aqui ao lado, 165.

A aventura começou com o transporte para o local da avaliação no dia seguinte. Ao contrário do que aconteceu na minha primeira avaliação, em que usamos as instalações da UEFISCSU, bem no centro, a ANCS resolveu instalar os avaliadores no ICEMENERG,

From em Bucareste, para avaliar projectos da ANCS

que fica bem longe do centro, mesmo ao lado de uma das três centrais térmicas que alimentam esta cidade de muitos milhões de habitantes.

From em Bucareste, para avaliar projectos da ANCS

Simpaticamente, descobriram um hotel ainda herdado do anterior regime e bem perto do ICEMENERG, o RIN Grand Hotel, e convidaram toda a gente a ficar lá, a um preço convidativo, menos de metade do que estou a pagar no Novotel, e com um autocarro para levar todos os avaliadores às 8:30 da manhã e trazê-los de volta às 18:00.

Se há coisa que eu destesto, são estes hotéis isolados de tudo. Felizmente, já tinha reservado o Novotel e não segui o conselho. Fiquei em troca com o problema de estar às 8:30 no RIN ou no ICEMENERG.

Comecei por perguntar ao ANCS, que me disse que a única maneira de lá chegar era de táxi! Achei estranho. Perguntei à Claudia (que é romena) que me disse que não estava a ver nenhuma solução melhor. A Claudia perguntou ao Pai dela, que vive em Bucareste, que me deu o mesmo conselho, taxi... Parecia um complô.

Entretanto, noto que num ofício sobre esta logística toda era dito que quem não estivesse às 8:30 no átrio do RIN teria de ir no autocarro 102, três paragens. Fez-se-me luz! Abri o mapa gigante que a Claudia me tinha oferecido há uns tempos, e reparei que numa estação do metro próxima, Aparatorii Patriei, também passava o autocarro 102! Eureka! Bastava ir na linha 2 do metro da Universitate até Aparatorii Patriei, 6 estações, e depois apanhar o autocarro 102 até ao hotel, aí umas 4 paragens.

Como sabia que o custo das viagens é o mesmo no metro, nos autocarros, nos trólei-carros e nos tramways, admiti que a minha carta de 10 bilhetes servisse. Saí do hotel às 7:45, e às 8:05 estava em Aparatorii Patriei. Olho para o lado e lá vinha o 102. Entrei, tendo validar o bilhete, e descubro que as máquinas são incompatíveis! Era preciso um bilhete diferente!... Bem. Ninguém falava senão romeno, mas uma senhora oferece-me um bilhete e assim se resolve a situação. Perguntei-lhe quanto custava, ela não queria aceitar, mas outra lá a convence e ela aceita o meu leu (um leu, vários lei...). Chego ao hotel às 8:20, bem a horas.

Entretanto, começam a perguntar-me como cheguei ao hotel, e eu falo no autocarro 102. O que eu fui falar!... A linha 102 é perigosíssima, garantia de assalto no mínimo, aquela genta tranquila que me ajudou, afinal não era, e portanto não podia andar mais alí. Ponto. Como lhes disse que tinha aversão a táxis a desfazer-se, sem ar condicionado, cheios de fumo, houve reunião dos responsáveis, e decidiram levar-me a outra estação do metro, mais segura, para eu seguir a partir daí. Solução bem pior, pois exigia mudança de comboio na Piata Unirii.

Claro que hoje de manhã usei o mesmo caminho, já equipado de um bilhete adequado. Correu tudo bem, e às 8:15 lá estava no hotel RIN para apanhar o autocarro dos avaliadores. Ainda não perceberam porque não fui assaltado!...

E de tarde, vim pelo mesmo caminho, claro!

(depois conto a história do almoço de hoje)

domingo, 20 de setembro de 2009

O comportamento caótico do voto útil...

Uma vez que todos os votos contam, mesmo os nulos e os que não se depositam nas urnas, fala-se agora muito em voto útil. Mas estamos numa situação em que o voto útil não é fácil de decidir. Parecendo que a grande maioria das pessoas pretende hoje que Sócrates ou Manuela governem, mas sem maioria absoluta, a questão é, pois, como é que se consegue um resultado destes?
Como se todos os que pretendem um governo Sócrates, ou Manuela, com maioria relativa, votarem Sócrates, ou Manuela, pode muito bem acontecer que essa maioria se transforme em absoluta, há aqui um problema de inteligência colectiva que não é fácil de equacionar.
Há dois tipos básicos de comportamento humano que aqui se confrontam, tal como num jogo de cara ou coroa, em que há os que jogam cara porque têm saído muitas caras, e os que jogam coroa porque... têm saído muitas caras! Agora, é os que votam Sócrates, ou Manuela, porque as sondagens lhes dão vantagem, e os que votam Sócrates, ou Manuela, porque as sondagens não lhes dão vantagem! Outra situação deste género é o da evolução de uma população, em que se combinam os efeitos da população, quantos mais pais mais filhos, e da fome, quantos mais pais, menos filhos.
Ao estudar este problema, Verhulst chegou a uma equação recursiva muito simples
x(n) = alfa.x(n-1).[1 - x(n-1)]
em que x(n) é um valor entre 0 e 1 e alfa é uma constante de proporcionalidade, alfa < 4, tendo chegado à conclusão que para alfa superior a 3.57 a sequência começa a exibir um comportamento caótico.
O que explicava o comportamento aparentemente imprevisível das populações de coelhos em certas ilhas, e talvez explique a dificuldade de realizar sondagens nos dias de hoje...

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Partido Nulo

Esta ideia do Partido Nulo desperta-me muita simpatia.
Se um voto em branco é uma não escolha - qualquer um serve, os outros que escolham, um voto nulo é uma escolha - nenhum serve! E se nenhum serve ninguém deve ocupar esse lugar.
Esta ideia de ficaram vazias as cadeiras correspondentes aos votos nulos não só permite poupar os custos correspondentes a esses deputados inexistentes, como vai assinalar permanentememte, durante todo o mandato, a real representatividade dos deputados reais, e deveria mesmo contar para a formação de maiorias nas votações.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

A New Kind of Science

Sou um admirador incondicional de Stephen Wolfram, o criador de Mathematica, uma ferramenta extraordinária de computação, modelação, simulação e documentação, e usada em MathWorld, uma fantástica colecção de recursos de matemática criado pelo não menos notável Eric Weisstein, de WolframAlpha, um motor de conhecimento computacional que começa agora a ser compreendido, e de tantas outras iniciativas.
Não resisti a adquirir a versão em papel de A New Kind of Science, que está completamente disponível na Web, mas que tem um sabor especial se puder ser manuseado em papel. Disse manuseado, e não disse lido. O livro contem material desenvolvido ao longo de 20 anos, 1200 páginas de texto altamente condensado e sintético, meio milhão de palavras, e a sua escrita necessitou de cerca de 10 anos de trabalho contínuo, cem milhões de teclas premidas, centenas de milhares de páginas de notas em Mathematica, um milhão de linhas de código, e mais de um milhão de biliões de operações de computador.
Wolfram nasceu em 1959 em Londres, é um jovem.
A New Kind of Science, em papel, ou na Web, é incontornável para quem quiser perceber as relações entre as ciências que nos rodeiam e que afectam e de certo modo determinam as nossas vidas. Vale a pena visitar o site, onde se encontram projectos de demonstração, foruns de discussão e muitas outras oportunidades de entrar no munod de Stephen Wolfram.