segunda-feira, 15 de junho de 2015

Non Profit

Uma sociedade que se desenvolve em função do lucro, em função da existência de seres humanos que acham que podem contratar (escravizar?) outros seres humanos com o objectivo de realizar lucro, de acumular riqueza, não é uma sociedade em que apeteça viver.
No entanto, por mais progresso, desenvolvimento, automação, robotização, eliminação de postos de trabalho degradantes, ainda não não fomos capazes de chegar a uma nova redistribuição do trabalho que permita a todos trabalhar menos e viver melhor.
Cada posto de trabalho eliminado tem um custo social duplo, pois o sistema social passa a ter mais despesas (desemprego, formação, etc,) e menos receitas (taxas sociais), e só beneficia o empregador.


Dizia o grande Agostinho da Silva que “O trabalho não é virtude, nem honra; antes veria nele necessidade e condenação; é, como se sabe, consequência do pecado original.” Será mesmo? Não seremos capazes de romper com esta situação?
Hoje, temos a experiência, os exemplos e as ferramentas que nos permitem augurar que sim.
Há uma nova mentalidade entre os jovens, disponibilidade, espírito non profit, vontade de fazer bem não pelo lucro que daí pode advir mas porque tal contribui para uma vida melhor.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Desurbanizar

No passado sábado, foi dar uma volta por uma zona da cidade que conheço muito bem, e onde passei toda a minha juventude.
A casa em que nasci já não existe. Nem a rua!


Esta foto foi tirada na rua de Artur de Paiva. Ali ao fundo passa a actualmente inútil rua de Costa Cabral, e no seu prolongamento estava a rua em que nasci, na casa nº 17. Tudo desapareceu. 
Dando a volta ao prédio plantado na antiga rua, chega-se ao terceiro mundo.


Esta é a vista das traseiras. Deprimente.
Continuando a volta, um sinal que aviva a memória. Um prédio antigo que ainda lá está! No meio do esquecimento, mas está, na confluência da travessa das Barrocas com a rua de Júlio de Matos.


Confirma-se que toda a zona oriental da cidade foi percorrida por um vendaval de destruição e de betão pronto de que vai demorar muito tempo a recuperar. Não me reconheço. Não sei movimentar-me. Tento chegar à estação de Contumil, e daí à avenida de Cartes, mas perco-me. São rotundas sobre rotundas. É o terceiro mundo.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Adeus 2014!

Fico-me com Torga
E prometo voltar em 2015.
Com a esperança de que os sinais que começamos a avistar sejam os de uma nova realidade, menos avessa à cultura e à educação, sem medo dos poderosos, tantas vezes com pés de barro.
Bom Ano para todos!

segunda-feira, 21 de julho de 2014

O logro da tecnologia

O discurso de hoje, aquilo que a maior parte das pessoas pensa e diz, a todos os níveis, esquece que a tecnologia é um produto da mente humana, e deve estar ao seu serviço.
Pelo contrário, as pessoas aparecem como que "escravas" da tecnologia, do seu uso, independentemente da utilidade que lhe atribuam, e desvirtuando completamente a noção de tecnologia como servindo de apoio à sua actividade.
Encontro todos os dias casos deste endeusamento da tecnologia, com consequências e custos gravíssimos, ainda por cima mal compreendidos pelos fautores dos excessos.
As tecnologias educativas serão um dos exemplos que melhor conheço, mas poderíamos falar também das tecnologias médicas, por exemplo.
A confluência de vendedores de produtos tecnologicamente "avançados" com utilizadores com expectativa de melhorar a forma como realizam as as suas tarefas profissionais, e com o dinheiro de terceiros, normalmente dos nossos impostos, produz uma mistura explosiva, de que tanto pode resultar distribuir milhares de quadros interactivos multimédia pelas nossas escolas do ensino básico e secundário, ou computadores pelos nossos tribunais, ou equipamentos que nunca serão utilizados por certos hospitais.


E assim, hoje, não se olha para o doente, prescreve-se uma bateria de exames, não se ensina aos estudantes a vantagem de um suporte visual para comunicar com uma audiência, ensina-se Prezi acefalamente, porque é moda, não se pensa como despertar o pensamento computacional nos nossos miúdos, dá-se-lhes Scratch.
No entanto, a tecnologia é absolutamente indispensável para que possamos deixar de ser um País de escravos dos processos, da produção, da produtividade, para sermos um País da criatividade e da concepção, da valorização dos nossos recursos.
Só que este pequeno clique, esta mudança de mindset, requere que se pense, que se compreenda que as nossas atitudes, as nossas decisões, estão para além de todos os decretos do governo, mas resultam do exemplo, da influência, das redes, da vontade de perceber, e é isso que falta.
A tecnologia vem logo a seguir.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Depressa e devagar

Eu, que em quatro décadas conclui um curso de Engenharia Electrotécnica com uma ou duas aulas sobre transistores dadas por um professor que só sab(er)ia de válvulas, que iniciei o ensino e a aprendizagem de Electrónica do Estado Sólido na Faculdade de Engenharia, que recebi e folheei por essa altura a primeira edição do primeiro catálogo da Intel com o microprocessador de 4 bits Intel 4004, que fui co-autor do primeiro projecto de um computador digital realizado na FEUP, que fui adepto do Z80, que me apaixonei pela digitalização e pelo Processamento Digital de Sinal, que explorei até ao limite a utilização de múltiplos microprocessadores de sinal no processamento de sinais bioeléctricos, que trabalhei com o grande computador de Manchester, em que podia submeter programas ao ritmo de um por dia (!), que colaborei, em Portugal, no desenvolvimento de um equipamento de processamento de sinais electrofisiológicos de topo, que acompanhei todos os desenvolvimentos de microprocessadores Motorola, Intel, AMD, de 4, 8, 16, 32, e 64 bits, que comecei a usar e-mail ainda nos anos 80, com o sistema Eurokom, da Comissão Europeia, que estive no projecto do Centro de CIM do Porto, que enquanto durou formou dezenas de engenheiros de produção e sistemas, que comecei a utilizar a Internet na sua hora zero, com modems a 14.4 kbit/s, e com modems de cabo em casa, e depois ADSL, e agora fibra, que vi os primeiros Macs, o DOS, o Windows, a Google, o Facebook, que trabalhei em dezenas de projectos de cooperação internacionais e nacionais, que descobri o potencial dos sistemas com inteligência distribuída, das redes, dos sistemas complexos, da análise de dados e visualização da informação, até chegar à Social Physics, by Alex Pentland, ao big data, às portas de um novo mundo, respiro fundo e penso.
Passou tudo tão depressa que quase ninguém se apercebeu do que ia acontecendo, dos passos de gigante que iam sendo dados, da lógica das coisas, das implicações na nossa vida do dia a dia, do emprego e no desemprego, da velocidade das transacções, da globalização, do número exponencialmente crescente de intervenientes nos mercados, dos novos fluxos, não de materiais, ou de energia, ou de informação, mas sim de ideias, que se espalham e ganham as pessoas segundo regras e leis que só agora começam a ser estudadas. Mas sempre com a sensação de que tudo passou devagar, que muito mais e melhor poderia ter sido feito no mesmo tempo...


O mundo é diverso, mas hoje está ao nosso alcance como nunca esteve, desde que saibamos mobilizar as nossas competências, a nossa imaginação e a nossa curiosidade. Nunca foi tão fácil.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

O velho e o novo

Durante muitos anos ninguém se interrogou sobre o facto de os automóveis serem todos iguais, e pretos. Era assim. Não se discutia. Até que se começou a discutir, e a pensar, e a automatizar a produção, e a criar um vínculo entre cada automóvel na linha de montagem e o seu futuro dono, de tal modo que hoje nos surpreendemos só de pensar que já não foi assim.
O mesmo com os sapatos, onde havia muito poucos modelos diferentes, porque uma linha de montagem de sapatos teria de produzir sapatos em número suficiente para amortizar cada colecção de cortantes, ou seja, umas boas cenenas de milhares. Até que apareceram as máquinas de corte por jacto de água, e lá se foram os cortantes, e todas essas restrições, podendo os sapatos agora ser produzidos ao gosto de cada cliente, sem grande aumento de custo.
E até no ensino, cada vez mais focado no aprender, no aluno, no "consumidor", e não no professor, no ensinar, no debitar das matérias do currículo nacional de uma forma mecanizada. Embora aqui ainda haja um longo caminho a percorrer até chegarmos à escola sem papéis, sem os velhos manuais, pesados, mal tratados, rabiscados pelos alunos, cheios de erros, a pedir que os substituam por manuais electrónicos, que se actualizam como qualquer aplicação para um tablet, que registam a actividade de cada um, que comparam, que avaliam as actividades propostas, que tratam individualmente cada aluno, de um modo personalizado, e colocam a cada um os desafios mais motivadores.
Na Internet, que passou em meia dúzia de anos dos velhos sítios com conteúdos gerados pelos seus criadores, para os novos espaços públicos onde os conteúdos são gerados pelos utilizadores, como no Facebook, onde cada um tem a sua cronologia e interage com quem quer, num espaço pessoal, seu, e em todas as aplicações de que gostamos.
Na organização do trabalho, em que a ideia de colaborar, de fazer em conjunto, uma coisa indefinida, uns escondidos atrás dos outros, foi substituída pelo conceito de cooperar, em que o objectivo é decomposto em tarefas que são distribuídas pela equipa, sabendo cada membro exactamente o que lhe compete fazer e como o sucesso do todo depende da sua parte.
Até no software, nos sistemas multi-agente, por exemplo.
Mas não é assim na política entre nós. Não nos propõem contratos claros entre eleitores e eleitos. Oferecem-nos listas, tudo a monte, em que não sabemos quem vai fazer o quê, ou representar quem.
E é por isso que, por toda a Europa, os cidadãos preferem propostas claras aos velhos partidos de massas, das listas, do tudo a monte, e é isso que tem de ser mudado. Que vai ser mudado, quer os partidos queiram quer não.
Talvvez construindo sobre os movimentos que aqui e agora vão emergindo, vão propondo caminhos novos.
Primárias abertas nos partidos. Porque não? Círculos uninominais. Quando? Qual é o medo?

domingo, 18 de maio de 2014

Dia 1 do pós-troika: tudo igual?

Não! Não está tudo igual. Está tudo pior. Porque ainda não começamos sequer a pensar como vamos recuperar da destruição da nossa agricultura e indústria tradicionais, em troca de uns milhões que foram parar a alguns bolsos, recuperar dos investimentos faraónicos permitidos pelo dinheiro fácil, e recuperar desta armadilha chamada Euro, destes quase trinta anos trágicos em que sonhamos que tudo seria possível como num milagre.
Entretanto, o mundo mudou e muda todos os dias, transformando-se rapidamente numa economia baseada na robotização, na automatização e no conhecimento, na substituição de postos de trabalho ocupados por pessoas menos qualificadas por máquinas, por soluções globais, que atravessam as fronteiras, sem que quem tem a obrigação de estar atento, os sindicatos em primeiro lugar, avance com soluções que tirem partido deste fenómeno para reduzir as horas ou os dias de trabalho semanal de cada trabalhador, que distribua o trabalho existente por todos os trabalhadores disponíveis, avaliando, remunerando melhor quem trabalha melhor, mas mantendo todos saudavelmente ocupados.
E tempo livre significa lazer, indústrias do lazer, novas actividades que poderão mudar a forma como trabalhamos e como usamos o nosso tempo livre, que terá de ser em formas de convívio entre os concidadãos, que contribuam para a construção de uma nova identidade, baseada nos conceitos fundadores da fraternidade e da soidariedade.
James Altucher aponta estes problemas no seu livro Choose Yourself, de que faz aqui uma breve apresentação

O problema é muito simples: cada um tem de fazer a sua própria escolha, tem de melhorar, tem de ter uma ideia por que lutar, um programa de vida. E o colectivo também. Não acredito que os actuais líderes dos dois maiores partidos sejam capazes de compreender sequer o problema. Basta-lhes salvar os seus lugares na máquina do Estado, por mais pobre que esteja ou seja.