sábado, 28 de fevereiro de 2026

Gerir as pequenas coisas

Hoje, dei-me a pensar nesta nossa dificuldade quase genética de gerir os sistemas que fazem parte da nossa vida, desde a saúde ou os transportes até àquelas coisas verdadeiramente pequenas, mas que, se pensarmos bem, são bastante grandes.
Sempre que saio de casa, acendo a luz do patamar e chamo o elevador. Quase sempre, o tempo do temporizador da luz é inferior ao tempo que o elevador demora a chegar, pelo que tenho de accionar novamente o interruptor de luz, que assim vai ficar acesa durante algum tempo depois de eu entrar no elevador. Se o tempo do temporizador fosse ligeiramente maior, quanta energia se pouparia? Alguém terá pensado nisto?
Outra situação em que a gestão do tempo falha por muito é nas passadeiras para peões. A maior parte das vezes, pelo menos naquelas que eu mais uso, o tempo de espera até se acender a luz verde para os peões é de tal modo grande que já não há automóveis para passar e o sinal continua vermelho. Eu, como a maior parte das pessoas, atravesso a rua, e algum tempo depois lá fica o sinal vermelho para uns automobilistas que não percebem por quê, pois não há nenhum peão a atravessar. Não haveria melhor solução? Certamente que sim.
A gestão dos espaços nos parques de estacionamento, salvo raras excepções, também é péssima. Os lugares demasiado estreitos fazem com que sobrem fracções de lugares dispersas ao longo do parque que, somadas, dariam para mais alguns lugares, que assim ficam desaproveitados. Conheço vários parques em que assim é.
Parei na contramão atrapalhando o tráfego.
A localização das paragens dos vários sistemas de transportes na cidade do Porto é outro exemplo de péssima gestão de espaços e distâncias. Quando era de prever que a intermodalidade fosse favorecida colocando numa mesma vizinhança as paragens dos autocarros, do metro ou do BRT, elas são colocadas em pontos que parecem pensados exactamente para obrigar os utilizadores a fazer longas distâncias a pé.
Na minha opinião, quem não é capaz de prestar atenção aos pequenos detalhes, de se interrogar sempre sobre se não haverá uma solução melhor para o pequeno problema, não vai ser capaz de gerir os grandes sistemas. Ou será?

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Corrigir erros com outros erros?

Se há exemplo dos malefícios de tentar corrigir um erro com outro erro, é o projecto MetroBus, do Porto.
Junto à Casa da Música
Como não sabemos como terá sido, vamos tentar reconstituir a sequência de decisões que conduziu ao descalabro actual, de que ninguém quer ser responsável.
Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.
- ...
- Dava jeito termos um projecto para o PRR, com um valor que valha a pena, e que não dê muito trabalho. Vamos pensar nisso?
- ...
- Podíamos fazer uma linha nova entre a Boavista e a Praça do Império.
- Isso já temos!
- Mas é de autocarro, a nova vai ser um MetroBus. E a hidrogénio! 
- Então é só substituir os actuais autocarros.
- É uma linha de metro. Operada pelo Metro do Porto.
- Pensava que era pela STCP...
- Nada disso! E não vamos usar aquelas velhas paragens de circulação alternada na faixa central da avenida da Boavista. Vamos fazer umas paragens novas, mesmo no centro da via.
- Mas parece-me que não há espaço.
- Se não houver, reduz-se o espaço para os passeios e o outro tráfego desvia-se. Tem de ser.
- ...
- Mas pensando bem, a saída dos passageiros passa a fazer-se do lado esquerdo, ao contrário do normal. 
- Não há problema. Coloca-se no caderno de encargos que as portas são do lado esquerdo.
- E na avenida Marechal Gomes da Costa? Como se faz?
- Pomos os autocarros a circular na faixa da esquerda e colocam-se as paragens no jardim central.
- E achas que as pessoas aceitam isso?
- Encomendamos as paragens a um arquitecto de renome, e tudo se resolve.
Paragem de Serralves
- E o hidrogénio?
- Pedimos também financiamento para uma fábrica. Que vai ficar na Areosa.
- A sério?
- Sim. Já a prever a expansão do MetroBus.
- ...
- Vai chegar o primeiro veículo. Temos de experimentar.
- E o Metro do Porto já tem motoristas?
- Não. São os da STCP.
- ...
- Parece que os autocarros não conseguem fazer a inversão de marcha junto à Casa da Música...
- Nem me digas. O que vale é que vêm aí eleições autárquicas. Alguém há-de resolver!
- Não seria melhor desfazer aquilo tudo, e redesenhar a avenida, aproveitando para incluir uma ciclovia?
- Nem fales nisso. Ainda se lembram de redesenhar também a circulação nas avenidas atlânticas.

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Revisitar a história

Alguns saberão da minha participação em certas lutas quer antes quer depois do 25 de Abril, desde o meu tempo de estudante, e depois docente da Faculdade de Engenharia.
Fiz parte do Conselho Directivo Provisório e do primeiro Conselho Directivo da FEUP depois da revolução de Abril, e, após a consagração da sua organização departamental, desempenhei em dois mandatos o cargo de Director do recém-criado Departamento de Engenharia Electrotécnica.
Composição do Conselho Directivo Provisório, Maio de 1974
Decorre neste momento na FEUP uma exposição intitulada A Velha Escola Morreu, e fui recentemente convidado a contar alguns dos episódios mais relevantes da época para integrar uma reportagem em vídeo que estará a ser elaborada.
Devo dizer que declinei o convite, não por não ter nada a testemunhar, mas por me ter apercebido que esta coisa de revisitar a história, mesmo a de uma simples instituição, acaba por ser uma operação de filtragem de factos do passado à luz do nosso conhecimento ou interesse presente, e que isso me incomoda.
E não tem nada a ver com considerações sobre a ideia de que a velha Escola morreu. Morreu? 

quinta-feira, 2 de maio de 2024

Inteligência humana

Viver em conjunto, mais de oito mil milhões de habitantes no planeta Terra, com tão poucos conflitos graves, sim, tão poucos, é uma dádiva que devemos agradecer aos nosso antepassados e ser capazes de preservar para o futuro.
Construir comunidades, que se formaram em espaços e tempos diferentes, que se foram descobrindo, que souberam resistir, melhor ou pior, a impulsos de conquista, de imposição de ideias, de crenças, de superioridade, descobrir outras comunidades, construir comunidades de comunidades, todas diferentes, cada uma com as suas tradições e com os seus valores, é um desafio de enorme dimensão.
Árvores...
Sendo certo que a superfície do planeta Terra se tem mantido mais ou menos constante, na verdade o número de habitantes tem crescido quase exponencialmente, ao mesmo tempo que o conhecimento e o domínio de tecnologias criou paradigmas de mobilidade e de comunicação que mudaram radicalmente o modo como as pessoas e as ideias se movem e propagam.
Vencidos os desafios da distância e do tempo, olhamos hoje para os desafios da informação e do conhecimento de uma forma radicalmente diferente, temos dado passos importantes na inteligência artificial, e estamos eventualmente nas vésperas da compreensão do essencial da inteligência humana.
Inteligência é a capacidade de interpretar, de prever, factos e comportamentos, de extrapolar, de criar, de modificar, de adaptar, de arriscar, e tem muito pouco a ver com a chamada aprendizagem automática, de que os computadores são capazes, tirando partido da sua capacidade de analisar sem fadiga um número infinitamente grande de situações.
Recordando Khaneman, "Thinking, fast and slow", nós, os humanos, somos capazes de tomar decisões rápidas, quando é preciso, e lentas quando tal se impõe.
Rede neuronal (imagem de Freepik)
O nosso cérebro será uma grande rede neuronal, em que as ligações físicas e químicas desempenham papeis fundamentais, e, hoje, líderes mundiais nestas áreas já apostam em componentes electrónicos baseados nestes conceitos vitais.
Falta saber qual a utilização que poderá ser dada a estas capacidades, se para bem da humanidade ou para a sua destruição, se seremos capazes de dobrar este Cabo da Boa Esperança, ou será este um Cabo das Tormentas.
Ainda não sabemos.

quarta-feira, 3 de abril de 2024

Amsterdam

Em 1972, era assistente eventual na FEUP, e fui destacado para acompanhar os alunos finalistas de Engenharia Electrotécnica na sua viagem de fim de curso, numa rota que incluía Inglaterra, Países Baixos (na altura, Holanda) e Bélgica.
O início da viagem coincidiu com uma reunião do chamado Grupo Português de Telecomunicações, na JNICT, que na altura secretariei, e a Faculdade concordou em pagar a minha viagem de avião até Londres, para me juntar ao grupo.
Curiosamente, a agência de viagens disse-me que era mais barato fazer a viagem Porto-Amsterdam com escala em Londres, e assim fiz.
Foto retirada da página do turismo dos Países Baixos
A minha bagagem seguiu no autocarro dos alunos, eu dei as minhas voltas e a meio da tarde fui até Heathrow, comprei o tradicional álcool na Free Shop, e apanhei o avião. Destino, Hotel Museum.
Em Schiphol, apresentei-me no controlo de passaportes, e o polícia de serviço pediu-me para lhe mostrar o bilhete de regresso.
Uau! Não tinha. E contei-lhe os factos. Um português, em 1972, sem bagagem, sem bilhete de regresso, a quer entrar na Holanda, com uma história de que ele não acreditou nem numa palavra...
Atendeu o resto da fila, e depois pediu-me que o acompanhasse ao gabinete.
Lá, expliquei mais uma vezes a minha situação, e ao fim de algumas tentativas consegui convencer um dos presentes a telefonar para o Hotel Museum, e confirmar as minhas palavras.
Alívio. O Hotel confirmou que estava à minha espera, e que até já lá estava o grupo.
Um dos polícias levou-me até ao transporte público, explicou-me a melhor maneira de chegar ao hotel, e despedimo-nos com um sorriso.
A triste imagem dos jovens portugueses, a tentar de todas as formas fugir de um regime que já se tornara insuportável. A minha qualidade de universitário tinha-me permitido pedir o adiamento da incorporação no serviço militar para o ano em que completasse 30 anos de idade, mas isso são outras histórias.

sexta-feira, 29 de setembro de 2023

Dilemas I

A vida é feita de decisões, a maior parte delas aparentemente difíceis e irreversíveis.
Nós, que passamos pelo planeta Terra menos de dez décadas, em média, que somos um em oito mil milhões de habitantes vivos, ou um em cento e vinte mil milhões de habitantes passados e presentes, vivemos tempos dramáticos, como se tudo estivesse sobre os nossos ombros, como se cada decisão nossa pusesse em risco toda a humanidade.
É um facto que a evolução do planeta Terra e de todos os seres que nele habitam, depende das nossas decisões, actuais e passadas, de uma forma altamente complexa. Mas não só. 
Somos um pontinho no espaço.
A Terra e a Lua vistas da Cassini a orbitar em Saturno, a 1400 milhões de km, em 2017.
Mas sim, temos de tomar decisões, as melhores que soubermos, com o que sabemos.
Esta reflexão vem a propósito de uma conversa que segui hoje no X sobre o ensino das disciplinas básicas nos cursos universitários:
Devemos defender maior carga horária em disciplinas básicas porque elas que vão permitir que os alunos possam adaptar-se ao mercado de trabalho depois. Não adianta o plano de estudos tentar correr atrás do mercado. É com uma boa base que se dá segurança aos formandos.
Pensando tanto como discente quanto docente, este "detalhe" é extremamente relevante e complexo. É fundamental que uma base sólida seja construída durante a graduação, pois permite que cada um navegue no que o mercado estiver pedindo quando chegar a hora. 
- Mas como aluno é horrível ficar estudando conteúdos de base. É desestimulante, e não adianta dizerem que aquilo é importante.
A tendência actual, incrustada nas agências de acreditação e nas comissões de avaliação, é considerar que o plano de estudos e os conteúdos das unidades curriculares são importantíssimos, que a presença ou ausência de uma determinada matéria podem afectar de uma forma grave toda uma geração.
Sou dos que discordo, hoje e sempre, desde o tempo em que faltava às aulas teóricas para ir jogar bilhar no Latino ou no Ceuta, e era apanhado pelo professor, que não percebia o nosso desinteresse.
É a vida!

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

After You!

"Please, you go first, I will go after you".
Estava a ouvir um milionésimo comentário sobre o caso Rubiales (já nem sei como se chama senhora) e achei-me a pensar se ainda será normal deixar a minha vizinha entrar à minha frente no elevador, ou se isso já é um claro sinal de um machismo incurável.
E de repente recordei-me de um episódio passado comigo no Hotel Mandarin Oriental, em Macau, em 1998, antes da devolução do território à China.
Hotel Mandarin Oriental, Macau, 1998
Quando descia do quarto até ao rés-do-chão, pelo elevador, era normal haver um grupo de hóspedes a querer entrar, mas sem usar o preceito de deixar em primeiro lugar saír as pessoas que o pretendiam, e depois entrar calmamente. E eu, "educadamente", lá me desviava para os deixar entrar mesmo antes de eu próprio sair.
Comentei isso com um amigo meu que já estava em Macau há algum tempo, que me explicou que tal comportamento até podia ser visto como ofensivo aos olhos desses hóspedes, que mais não faziam que responder ao seu desejo instintivo de uma pequena brincadeira inofensiva matinal, do tipo "vê se consegues sair antes de eu entrar"...
Nunca mais me esqueci, e sempre olho para os usos e costumes de todos os países como o resultado da sua própria história e vida.

quinta-feira, 23 de março de 2023

Pessoas livres, educadas e cultas

Gostava de viver num país de pessoas livres, educadas e cultas.
Pessoas livres, que pensem pelas suas cabeças, sem medos.
Educadas, que saibam como funciona uma comunidade, um país, e que respeitem a identidade dos outros.
E cultas, que dêem valor à educação e à cultura.
Tudo menos a cultura do dinheiro e do poder, ou do medo e da intimidação.

domingo, 1 de agosto de 2021

Vêm aí as eleições...

Estamos num momento estranho da nossa vida política, com um governo cansado, o que não admira, dado tratar-se de um segundo mandato, em condições muito difíceis de uma pandemia para que não há soluções imediatas, e uma oposição, ou melhor, o maior partido da oposição, perdido, sem ideias, com medo de se apresentar como alternativa, tudo fazendo para que o poder não lhe caia nas mãos.
Com um líder que não serve, que não quer, que só vê fantasmas, a oposição está condenada a um fracasso gigantesco.
Mas a democracia exige que haja sempre uma alternativa em que os eleitores também acreditem, que a oposição tenha um líder que se preocupe mais em conquistar os eleitores do que conquistar o governo, pois sem essa clareza vão emergir, e estão a emergir, partidos que só vão confundir os eleitores, que só vão ajudar a perpetuar a solução existente.
Tarefa difícil a dos eleitores, de não dar uma perigosa maioria absoluta ao governo incumbente, e de enviar à oposição uma mensagem clara de que não serve, sem, ao mesmo tempo, fortalecer outros partidos do lado direito do espectro democrático que nunca serão solução para os nossos problemas.
Somos um país atrasado, precisamos de apostar tudo na Educação, dos novos e dos menos novos, para podermos competir em pé de igualdade com outros países pelo investimento em actividades com maior índice de produtividade.

Fonte: Eurostat, 2019

E a educação faz-se com professores, com professores motivados, com professores com autonomia, com professores cientes do seu papel na construção de um país melhor, com professores que saibam despertar nos alunos a vontade de aprender. 
Ora se há domínio em que governo e oposição estão a falhar, é este.

terça-feira, 20 de julho de 2021

Sim, algo está a acontecer...

E chama-se vacinação.
Aliás, um simples gráfico, que mostra a evolução do número de óbitos em simultâneo com a evolução do número de elementos da população já minimamente protegidos, isto é, recuperados, ou vacinados, com uma ou duas doses, permite perceber bem o efeito da vacinação na agressividade da doença:

População protegida e média móvel de óbitos de 7 dias

No cálculo destes números, tivemos o cuidado de considerar que os recuperados há mais de 6 meses são vacinados, e portanto não são considerado no número de recuperados.
Se, em vez dos óbitos, considerarmos as camas hospitalares ocupadas

População protegida e camas hospitalares ocupadas

podemos contunuara verificar o forte efeito da vacinação no alívio do esforço que se pede aos hospitais do SNS.
Assim, e não obstante a variante Delta ser a responsável pela maioria dos contágios, parece que o avanço da vacinação não pode deixar de ser considerada na regulação dos comportamentos susceptíveis de propiciar contágios.
As pessoas sabem avaliar os seus comportamentos, mas têm de ser treinadas na sua avaliação de risco, que, no fundo, passa por uma contabilização dos contactos de risco que cada um tem em cada dia, e por uma consciencialização de que esse número deve ser tão limitado quando possível, e de que o uso de máscara reduz sempre a possibilidade de ocorrer um contágio.
Não é preciso aterrorizar as pessoas nem atirar-lhes com números e regras que não entendem.
Os jornalistas, os comentadores, os políticos, na sua maioria, bem que poderiam ter uma atitude mais positiva nesta matéria, em vez de se armarem em profetas da desgraça.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Será que algo está a acontecer?

No último post neste blogue, dizia eu que "O problema é que a comunidade científica alargada, não só epidemiologistas, especialistas em saúde pública, intensivistas, etc, mas especialistas em questões que vão desde a economia à educação, da matemática à ciência de dados, que deve ser ouvida e chamada a propor medidas, não dispõe de dados com qualidade, não conhece os métodos de rastreamento e de registo dos resultados, e não pode sequer questionar a situação sem ser acusada de traição à Pátria...".
Bem, ontem a Assembleia da República ouviu "os matemáticos" (quatro, segundo o Expresso), e foi anunciada uma iniciativa mundial Global.health que anuncia que a sua base de dados CoVid-19 "contains detailed information on over five million anonymised cases from over 100 countries".
Apresentação aqui: 


Com 9 832 294 casos individuais listados, à volta do globo, é um ponto de partida.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Desgoverno

Chegamos à fase mais crítica da pandemia, e, de repente, não há nada, nem ideias, nem planos, nem testes, nem vacinas, nem governo, nem presidente, nem partidos, um vazio completo.

Camas ocupadas e médias de 7 dias

Como os números começaram a "descer", apesar de ainda serem elevadíssimos quando comparados com a primeira vaga, e apesar da sobre-ocupação dos hospitais, toda a gente já só fala em "desconfinar".
Ontem, realizou-se mais uma sessão do Infarmed, daquelas em que um grupo selecionado de "cientistas" vai mostrar que sabe muitos números, que experimentou uns modelos, e mais nada. Se a imagem da ciência em Portugal se resumisse a estas sessões, que mais parecem aquelas sessões paralelas de conferências sem revisão por pares, em que se apresentam titubeantes resultados, estaríamos muito mal.
O problema é que a comunidade científica alargada, não só epidemiologistas, especialistas em saúde pública, intensivistas, etc, mas especialistas em questões que vão desde a economia à educação, da matemática à ciência de dados, que deve ser ouvida e chamada a propor medidas, não dispõe de dados com qualidade, não conhece os métodos de rastreamento e de registo dos resultados, e não pode sequer questionar a situação sem ser acusada de traição à Pátria...
E a comunicação social exulta, com números, com opiniões, sem se interrogar sobre o que poderia ser feito e como, e como se vai fazendo noutros países.
Mas ontem mesmo, o governo do Reino Unido publicou os seus documentos guia para o desconfinamento em Inglaterra


Vale a pena ler.
A situação que vivemos não é substancialmente diferente da de outros países. O vírus não conhece fronteiras, é transportado por pessoas. Há países mais e menos isolados, há estratégias diferentes, há resultados, que podem ser analisados.

Indicadores de incidência

Podemos aprender com outros, não querermos ser os melhores, quando parece que somos os piores.
E há as vacinas, já há muitas pessoas vacinadas, brevemente vamos saber o seu verdadeiro impacto.
Será que, sem desculpas por não dispormos de vacinas, seremos capazes de vacinar em tempo útil, até ao Verão, os tais dois terços da população que nos dariam a imunidade de grupo?

domingo, 20 de dezembro de 2020

Mais três meses...

Há exactamente três meses, lamentava-me eu aqui dos 67176 casos e 1888 óbitos CoVid-19 verificados até essa data, e da falta de informação existente sobre o que acontece aos internados, nomeadamente por que porta saem do hospital, se pela porta principal ou pela porta da casa mortuária. 
Hoje os números são outros, estão confirmados 370787 casos e 6063 óbitos, absolutamente imprevisíveis há três meses, mas as controvérsias continuam. São todos CoVid-19? Há uma caça ao assintomático? E os óbitos, estarão bem classificados? E a estratégia da Suécia já não é inteligente?


Se olharmos para esta figura, a vaga de Abril já parece insignificante, a vaga de Novembro parece estar a passar, apesar do número de óbitos continuar renitentemente elevado, e aguardamos que uma vacina nos venha ajudar a vencer uma terceira vaga, no primeiro trimestre de 2021.
O vírus, esse, continua diariamente a aproveitar oportunidades para encontrar novos hospedeiros, indiferente a todas as teorias. As leis do contágio são muito simples, e quando uma pessoa infectada e outra não infectada se encontram, só há dois resultados possíveis, não haver contágio ou ficarem os dois infectados. A situação epidemiológica nunca melhora, qual pingo de tinta num prato de leite.
Uma das situações mais perigosa é a das viagens, e já se sabe que em Fevereiro/Março foram as viagens de avião que transportaram o vírus de Wuhan para Milão e de Milão para nomeadamente o Norte de Portugal. Um passageiro infectado, antes de ter sintomas, vai encontrar-se com muitas pessoas, e dar ao vírus muitas oportunidades de saltar para novos hospedeiros, que por sua vez o vão transportar para outros ambientes, e assim sucessivamente.


Se somarmos os indivíduos infectados mais os contactos em vigilância hoje, contam-se mais de 450000 pessoas, que não sabemos se ficaram imunizados, nem por quanto tempo, e admite-se que haja bastantes mais que já tiveram contacto com o vírus, sem o saberem.
A vacina, as vacinas, serão a solução, não porque eliminem o vírus, mas porque o podem tornar mais inofensivo, através da preparação do nosso sistema imunitário para se defender do vírus caso ele tente penetrar no nosso corpo.
Vai demorar uns meses largos até chegarmos a uma percentagem de população vacinada que nos dê segurança.
Até lá, a regra é reduzir contactos ao mínimo e reduzir a possibilidade de contágio.

sábado, 19 de setembro de 2020

Andamos há seis meses nisto, e?...

Estou farto de números errados, mal explicados, absolutos, relativos, em percentagem, escalas lineares e escalas logarítmicas, gráficos difíceis de ler, com muita informação, sem informação, sem unidades, sem escalas, por parte de gente que se julga influente, que comenta nas TVs, que diz tudo e o seu contrário.
Gosto de olhar para os números da pandemia de um lado positivo, nomeadamente através deste gráfico:

Casos confirmados e internados em hospitais

Os casos confirmados são a média móvel de 7 dias, para filtrar as variações semanais devidas a circunstâncias externas, e os internamentos, são as camas  ocupadas em cada dia, sendo certo que cada paciente ocupa uma cama por um número indeterminado de dias. Assim, sabemos que até esta data houve 67176 casos confirmados, mas não sabemos quantos desses estiveram internados, em enfermaria ou em cuidados intensivos, nem quantas dos 1888 mortes ocorreram num hospital, ou se a diminuição do número de internados se deve por vezes a cura ou a morte de pacientes...
Sabemos também comparar o número de casos confirmados como número de mortes

Casos e mortes, médias móveis de 7 dias

Estas duas figuras permitem afirmar que, estando nós próximos, e podendo mesmo brevemente ultrapassar o número de casos verificado no final de Março e início de Abril, os números que mais contam, os números de internados e de mortes, parecem mais dominados, permitindo pensar que podemos ultrapassar sem grandes problemas essa fase. Uma duplicação do número de casos nos próximos dias pode mesmo não constituir um enorme problema...
O que é essencial? Por uma lado, aplicarmos as respostas que agora sabemos serem mais eficientes e menos agressivas para os infectados, mais antivirais e anticoagulantes, e menos ventiladores, talvez (com a minha ignorância), e por outro dificultarmos a vida ao vírus, obviamente, percebermos que o vírus é transportado por humanos e que, portanto, o número de contágios depende do número de contactos que cada um tem e da proximidade desses contactos - uma cotovelada é diferente de um abraço forte...
Já aprendemos grande parte dessas lições: usar máscaras, lavar as mãos, reduzir contactos sociais, ajudam, e muito.
E reduzir o número de contactos, o que já está a acontecer...

segunda-feira, 20 de julho de 2020

A força de uma imagem

O ECDC - European Centre for Disease Prevention and Control publica regularmente umas tabelas com os dados acumulados nos últimos 14 dias de casos CoVid-19 e de mortes causadas pelo CoVid-19, por 100 mil habitantes.
Sendo o ECDC uma agência da União Europeia, os seus dados são importantes e usados para a tomada de decisões no que ao CoVid-19 diz respeito.
Há uns dias, precisamente no dia 18, traduzi a tabela num gráfico XY, e publiquei esse gráfico com o comentário de que em qualquer das dimensões somos o terceiro pior dos 31 países considerados... (uma verdade)


Este gráfico foi partilhado por pessoa amiga no Facebook, e gerou alguns comentários alucinantes, que transcrevo sem mais comentários: "E a Bélgica, não aparece?", "As abcissas estão corrigidas pelo nº de teste por 100k habitantes? Por exemplo na Suécia andam a testar como se não houvesse amanhã, e anda a morrer pouca gente, ocupação de UCIs a descer vertiginosamente, nem surtos nem COVID parties - o pessoal está melhor da cabeça.", "Esse gráfico é FAKE não está no Link", "Já te perguntastes porque é que o Luxemburgo é o pior nos eixos dos x? Será que é mesmo o pior?", "Acho que está é incompleto... Cortaram na parte superior do eixo das mortes por 100k hab... Há vários países acima da Suécia nesse indicador se não estou em erro, Bélgica sendo um deles... Já não é o primeiro gráfico parcial que vejo a circular....".
Deixo a cada um as suas conclusões, fico-me com a constatação de que uma imagem é mais eloquente que muitos números alinhados em tabelas...

domingo, 10 de maio de 2020

R índice 0 e R índice t

Não sou epidemiologista, nem matemático, mas estudo sistemas complexos, sistemas com grande número de variáveis e de relações, e formas de os analisar.
Interesso-me especialmente por sistemas sociais complexos, envolvendo actores humanos, cada um decidindo pela sua cabeça, tendo em conta as suas crenças, os seus desejos e as suas intenções.
O contágio numa população, seja de uma doença ou de uma ideia, é um problema complexo, envolvendo muitas variáveis difíceis de controlar, como hoje todos percebemos olhando para a pandemia do CoVid-19.
E todos, políticos, jornalistas, comentadores, falam do R0 como se fosse uma entidade do conhecimento geral, algo de trivial que temos a obrigação de conhecer e entender.
Mas basta assistir às perguntas numa conferência de imprensa da DGS para se perceber que o conhecimento é parco.
Claro que há literatura e documentação, até em Português, cuja leitura seria útil para melhorar a informação que nos é servida à hora do almoço, mas aparentemente isso pouco interessa.
Uma fonte muito útil, em português legível, é o blogue de Tiago Charters de Azevedo, doutorado em Física-Matemática, professor do ISEL, que trata destes e de outros assuntos de uma forma acessível a todos. (ver fonte i))
Encontrei neste blogue a figura seguinte (entre muitas outras)


que mostra a evolução da taxa de transmissão R ao longo do tempo na região Norte. Pois claro! R0 é o valor de R no momento 0 e Rt é o valor de R no momento t. t é o índice.
E como se calcula este Rt, o valor actualizado da taxa de transmissão no momento t? Como sabemos, em média, quantos contágios provoca um infectado no dia t?
Curiosamente, um dos artigos mais citados para este cálculo tem um dedo português, ou melhor, dois, de Luís Bettencourt, membro do Santa Fe Institute, e Ruy Ribeiro, actualmente director do Laboratório de Biomatemática da FMUL. (ver fonte ii))
O cálculo é complexo, e recursivo, tem de assumir qual será o tempo característico de propagação (TCA assume 7 dias) e a partir daí fazer uma estimativa de Rt com base no número de casos do dia t e no histórico anterior, usando (mais fácil dizer que fazer...) probabilidades condicionadas, as velhas fórmulas de Bayes.
Um fonte de inspiração será o código publicado por Kevin Systrom (fonte iii)).
Fica aqui um desafio...
Fontes:
i) Tiago Charters de Azevedo, Rt: previsões para que te quero (2020)
ii) Bettencourt LMA, Ribeiro RM (2008) Real Time Bayesian Estimation of the Epidemic Potential of Emerging Infectious Diseases. PLoS ONE 3(5): e2185. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0002185

sábado, 9 de maio de 2020

CoVid-19 update Europa

Agora que há a percepção de que o Coronavírus viajou para a Europa via Milão, a cidade das feiras, e possivelmente via outras cidades da Europa central devido às férias do Ano Novo Chinês que muitos vieram passar junto das comunidades emigrantes, e que se disseminou devido às férias na neve, à Liga dos Campeões, aos concertos, às manifestações, e principalmente devido a uma tardia imposição do isolamento social que permitiria pelo menos parar para pensar, chegou a hora de olhar para as ondas que atravessaram alguns dos países.
Esta figura mostra os casos por dia e por milhão de habitantes em sete países europeus:


Os dados são os obtidos do Worldometers, e mostram bem, por um lado, que estas primeiras ondas estarão a passar, e por outro, que nos últimos dias Espanha e Portugal têm sobressaído negativamente a este respeito, talvez por algum facilitismo característico dos povos ibéricos...
A Grécia, por outro lado, tem números que são um décimo dos números dos outros países, o que é notável.
Também é possível relacionar os números de casos com o número de óbitos, neste caso de todos os países europeus com mais de 1000 casos. São trinta e cinco, no total, e a sua localização neste espaço bidimensional


revela a existência de um numeroso grupo de países, entre os quais Portugal, que ficaram abaixo dos 3000 casos e dos 200 mortos por um milhão de habitantes, enquanto que apenas onze estão fora deste grupo.
Caso para pensar...
Fontes:
i) Worldometers

CoVid-19 update Portugal

Vou manter aqui, com alguns comentários, gráficos e mapas actualizados sobre a evolução da pandemia em Portugal e no mundo, bem como alguns apontadores para os sítios que considero mais úteis para quem gosta de fazer as suas próprias previsões e tomar as suas próprias decisões, independentemente das sugestões das autoridades, que temos o dever de obedecer, mas não de seguir...
O meu primeiro gráfico é sempre o dos casos diários acumulados c(n) e das suas variações:


A azul estão os casos diários d(n) = c(n) - c(n-1) e a verde a variação de casos diários entre dois dias consecutivos v(n) = d(n) - d(n-1), ambos com valores na escala da direita.
Os casos diários sofrem de um variabilidade semanal, dias com mais ou menos testes, dias com mais ou menos registos, de forma que uma média móvel semanal do número de casos pode filtrar certos fenómenos ruidosos com frequência semanal:


Nesta figura estão os casos diários do gráfico anterior, agora sob a forma de barras e uma linha azul que representa a referida média móvel a sete dias, que claramente exprime melhor uma tendência.
Outro gráfico que produzo regularmente é o dos casos acumulados por região, sendo aqui visível que cerca de 60% dos casos a nível nacional ocorrem na região Norte


Naturalmente, dos doze concelhos com mais de 500 casos, dois estão na região de Lisboa e Vale do Tejo, dois na região Centro e os restantes oito na região Norte


Nesta representação, o eixo horizontal representa casos/1M de habitantes e o eixo vertical representa casos/km2, enquanto que o tamanho dos discos é proporcional ao número absoluto de casos.
Cada um saberá interpretar esta representação.
Fontes:
ii) DSSG-PT Github

quarta-feira, 18 de março de 2020

Coronavírus

E de repente o mundo inteiro é uma enorme rede de contágio. Uma rede com 7800 milhões de vértices, em que, desta vez, o que conta é a proximidade física e não a ligação virtual.
Um vírus novo salta de um animal para um humano, talvez num mercado de Wuhan, uma cidade chinesa na província de Hubei e depois alastra por todo o mundo de uma forma imparável, saltando de humano para humano, viajando nos transportes públicos, nos aviões, nos navios de cruzeiro, de tal modo que em três meses chegou aos cinco continentes.


Hoje, são mais de 205000 os infectados, e já são mais os casos activos na Europa que no resto do mundo! Um estilo de vida que se baseia muito no contacto social é o cenário ideal para a propagação do vírus. Uma festa, uma conferência, um evento desportivo, são uma oportunidade para o vírus saltar para umas dezenas de hospedeiros novos, que por sua vez vão contagiar outros, e outros, muito antes de serem detectados.
Há muitos dados publicados, muitas teorias sobre o que vai acontecer no futuro, mas gostava muito de saber onde cada um daqueles 205000 foi infectado e onde estava quando foi detectada a infecção. Estes mapas ajudariam muito a preparar as respostas dos sistemas de saúde e a retirar outras lições que os dados disponíveis de uma forma bruta não permitem.
Será que os sistemas de geo-referenciação da Google, do Facebook, ou das operadoras de telecomunicações, não podem libertar esses dados?

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

O ano 0 e a questão das décadas

O sistema de numeração dos anos não é perfeito.
O tempo é marcado pelas voltas da Terra ao Sol, pelas estações do ano, pelos dias, pelas fases da Lua, pela posição dos astros, fenómenos periódicos que sempre intrigaram filósofos, pensadores e cientistas, mas faltava uma origem do tempo com algum significado popular.
O calendário actual baseia-se no calendário Juliano, criado por Júlio César, esse mesmo, com doze meses e 365 dias, e alguns acertos, que decidiu que o ano 1 (1 dC - depois de Cristo) seria o ano em que nasceu Jesus Cristo, e assim pôs ordem e deu uma referência à contagem do tempo, mas não sendo matemático, não sendo o zero um número 'digno', entendeu que o ano anterior a esse seria 1 aC (antes de Cristo), e não o ano 0.
Para fazer com que os dias e meses batessem certo com os textos bíblicos, e outros, o Papa Gregorio XIII decidiu, no século XV, ouvido os sábios, introduzir um ajuste de 10 dias ao calendário, para o equinócio da Primavera passar a ser à volta de 21 de Março, e para que a Páscoa, que é no primeiro domingo depois da primeira Lua cheia, depois daquele equinócio, ocorresse normalmente nos primeiros dias de Abril.
Hoje pensa-se que Jesus Cristo terá nascido por volta de 2 aC. e terá sido crucificado em 7 de Abril de 30 dC ou 3 de Abril de 33 dC.
Outra questão é a da contagem das décadas, dos séculos e dos milénios.
Uma década são dez anos consecutivos. A década de 70 começou em 1970 e terminou em 1979, os anos vinte são a década que se iniciou em 1920 e terminou em 1929. Nestes casos, as décadas têm  o algarismo das dezenas constante.
Agora se quisermos contar as décadas desde a primeira (ver figura), a 202ª década dC vai terminar no final de 2020, e daqui decorre uma discrepância entre esta e a outra forma de olhar para as décadas: os anos vinte do actual milénio começam em 2020, mas a 203ª década dC inicia-se um ano depois, em 2021.
Pela minha parte, não tenho problema em que se festejam todas estas décadas...